O Comité Nobel Norueguês em tempo de guerra

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O apetecido Prémio Nobel da Paz – que, na edição deste ano, teve 343 candidatos, incluindo 92 organizações, sendo o segundo número de candidaturas mais elevado de sempre – foi, na sexta-feira (7 de Outubro), atribuído, em Oslo, pelo Comité Nobel Norueguês (responsável por esta categoria de excepção, pois todas as demais são anunciadas em Estocolmo), ao activista bielorrusso Ales Bialiatski e às organizações «Memorial», da Rússia, e «Center for Civil Liberties», da Ucrânia.

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As reacções imediatas são, como sempre, as mais diversas perante o cenário de quem é escolhido e agraciado pelo Instituto Nobel Norueguês. Por exemplo, a investigadora Madalena Meyer Resende (do Instituto Português de Relações Internacionais) – que, como vários analistas, tinha antecipado uma guerra que pode durar «muitos meses» – diz, numa entrevista ao «Público», a propósito da distinção agora partilhada por Bialiatski e pelas duas organizações de direitos humanos: «É claríssimo que estas três escolhas são contra Putin.»

Curiosamente, na mesma edição do referido diário, a jornalista Sofia Lorena a qual, na sua breve apresentação biográfica, confessa que, numa noite de Janeiro de 1991, ainda na sua meninice, a mãe a apanhou a escrever o nome de Saddam Hussein numa folha de papel, com os «olhos colados ao ecrã da televisão», e que aos poucos foi percebendo que «o mundo é só um e que uma decisão tomada em Washington pode mudar para sempre a vida de alguém em Bagdad» – comenta: «Os prémios Nobel da Paz mais seguros são os mais políticos, mas não vão para os políticos.»

Para o Comité Nobel Norueguês, os vencedores «demonstram a importância da sociedade civil para a paz e para a democracia». Numa breve consulta sobre Ales Viktaravich Bialiatski, ficamos a saber que nasceu em 25 de Setembro de 1962 e que é um activista pró-democracia e prisioneiro de consciência reconhecido pela sua participação no Centro de Direitos Humanos Viasna («Primavera»); e por, em 2020, ter sido galardoado com o Right Livelihood Award (também considerado o «Prémio Nobel Alternativo»). Recorde-se igualmente que, em 2013, Bialiatski foi distinguido com o Prémio Václav Havel de Direitos Humanos, promovido pela Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa, em parceria com a Biblioteca Václav Havel e a Fundação Charta 77, destacando acções da sociedade civil na defesa dos direitos humanos no espaço europeu, enquanto perpetua a memória do escritor e dramaturgo que foi o último presidente da Checoslováquia e o primeiro presidente da República Checa (actual Chéquia).

Imediatamente, os governantes da Bielorrússia (ou «Rússia Branca») – esse país sem saída para o mar e onde ainda predominam a arquitectura e os ressentimentos estalinistas de Alexander Lukashenko – criticam a atribuição do Prémio Nobel da Paz ao activista e estudioso da sua literatura nacional, que mantêm detido, desde 2020 (após as manifestações históricas da oposição ao regime de Lukashenko, a que se seguiu uma repressão implacável nesta ex-república soviética), por conjecturada evasão fiscal, quando as verdadeiras acusações da detenção têm motivações políticas.

Assim, não nos surpreende que o Ministério dos Negócios Estrangeiros bielorrusso utilize a rede social Twitter para censurar a influência política nas escolhas do comité norueguês, afirmando que o fundador dos galardões, Alfred Nobel, «andará às voltas no túmulo». Ao folhear o pequeno volume da «Antologia de Poesia Brasileira do Início do Terceiro Milénio», sobressai a interrogação de Andréa Catrópa (entre os dezoito poetas da «novíssima geração» aqui representados): «[…] seria vermelho o sentimento que salta valas e desrespeita o sono dos mortos?»

Vitalino José Santos

(«Diário de Coimbra»: DA RAIZ E DO ESPANTO, 09.10.2022)

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