A Terra acordou às avessas

(© El Colombiano)

Vitalino José Santos

Quem se levantou mais cedo e se delicia com o fresco da neblina matinal mal se apercebe que a Terra está doente e que acordou às avessas. Por detrás desta névoa rasteira e fechada, o nosso planeta apresenta temperaturas muito elevadas, indiciadoras de que, a qualquer momento, entre em convulsões. As camadas de gelo que a embelezam nos pólos estão a derreter. A sua atmosfera, pronta a desencadear tempestades nunca vistas, resmunga e rasga o céu, acolá e mais além, com raios e coriscos.

O seu clima altera-se muito rapidamente, sem padrões e sob formas que nos transformam em seres indefesos e inseguros. As planícies verdejantes amarelecem e dão lugar aos cactos e às areias que nos sufocam e deixam à sede, quais vidas desertas e perdidas na miragem. O mar salta para as cidades litorais e traz consigo um rasto salgado de fúria e de destruição. Quem não ouviu Bertold Brecht declarar que do rio que tudo arrasta se diz que é violento? Quem continua a não lhe prestar atenção quando o dramaturgo e poeta alemão observa que «ninguém diz violentas as margens» que comprimem esse rio, mais autêntico que muitas metáforas?

Hoje, a Terra acordou mesmo às avessas, com sintomas de aquecimento global. Há, sobretudo, dois séculos que nós, homens e mulheres deste planeta, temos vivido com comportamentos estranhos à Natureza e com desmandos que afectam as outras espécies animais e vegetais, cujos impactos são gravíssimos. Sim, somos nós os suspeitos. Não são as aves nem os insectos, nem os «ratos do deserto» – expressão que nos remete para um filme norte-americano e para a bravura das tropas que, durante a campanha do Norte de África na II Guerra Mundial, combateram o Afrika Korps da Alemanha nazi, liderado por Erwin Rommel, apelidado de «a Raposa do Deserto». Se, então, todas as evidências apontavam para Adolf Hitler como figura central do Holocausto e de um regime de terror, agora, somos todos nós – enquanto espécie colonizadora e expansionista – os culpados de a Terra estar febril e bastante doente.

Na nossa capacidade predadora, continuamos a esgotar os recursos naturais de um planeta que não é capaz de se regenerar tão depressa quanto a velocidade a que assistimos à destruição de ecossistemas inteiros. Se, antes, o especialista em ética política Mahatma Ghandi – que empregou a resistência não violenta para conseguir a independência da Índia do Reino Unido – considerava que a Terra tinha «o suficiente para a necessidade de todos, mas não para a ganância de uns poucos», hoje não há tempo a perder perante a crise ambiental.

Habituámo-nos a criticar os políticos de todos os males do Mundo, mas os pequenos gestos também são nossos. De facto, podemos modificar muita coisa, se mudarmos de atitude na utilização da água e se evitarmos o desperdício de energia e o recurso exaustivo aos combustíveis fósseis. Por outro lado, não será muito difícil separarmos os lixos orgânicos e recicláveis nem consumirmos apenas o necessário, evitando as compras compulsivas e sem nexo. Mais que poemas ecológicos, deveremos ser capazes de fazer as futuras gerações felizes, defendendo um direito que lhes é fundamental. Combater o «bicho-papão» que nos amedronta num espaço que queremos sustentável é uma tarefa diária para a nossa consciência entorpecida.

(«Diário de Coimbra»: DA RAIZ E DO ESPANTO, 17.07.2022)

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