Prémio Zayed: exemplo e impulso para a unidade e a paz

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Numa videomensagem para a entrega da edição de 2022 do Prémio para a Fraternidade Humana, o Sumo Pontífice agradeceu aos vencedores, os soberanos da Jordânia – o rei Abduallah II e a rainha Rania – e a Fokal (Fundação para o Conhecimento e a Liberdade) do Haiti, pelo compromisso com os refugiados e pela convivência, salientando que são necessárias paixão e criatividade para restituir ao país a perspetiva de um futuro melhor.

A edição do Prémio Zayed para a Fraternidade Humana, de 2022, constitui “um passo adiante no nosso caminho comum de fraternidade” e um “estímulo para continuar o compromisso em favor da unidade e da paz mundial”. Este é o significado que o Papa atribui ao referido galardão com que foram contemplados os ditos vencedores.

(Blog da Gabi – Gabrieli Brizola)

Na predita videomensagem gravada antes do início da guerra na Ucrânia e divulgada no dia 28 de fevereiro, o Bispo de Roma agradeceu ao xeique Mohamed bin Zayed Al Nahyan, príncipe herdeiro de Abu Dhabi, por promover o conteúdo do Documento sobre a Fraternidade Humana e apoiar o Alto Comité para a Fraternidade Humana, que promoveu o prémio em memória do xeique Zayed bin Sultan al Nahyan, fundador dos Emirados Árabes Unidos, em 1971, para “reconhecer e premiar os esforços de indivíduos e instituições comprometidos com o progresso da humanidade e a promoção da convivência pacífica”.

O prémio é, no dizer do Papa, uma forma “de apoiar e agradecer a todos aqueles que trabalham pela justiça, solidariedade e fraternidade”, propostas pelo documento, assinado em Abu Dhabi, em 4 de fevereiro de 2019, e fundamentais para restabelecer “os valores do amor, os valores que derivam do amor, da tolerância e da fraternidade”. E é um exemplo que pode “encorajar outros a promoverem iniciativas que favoreçam a coexistência pacífica e sejam um sinal de colaboração fecunda entre pessoas de diferentes religiões ao serviço de toda a humanidade”.

A grande mesquita de Abu Dhabi. (Vatican News)

Dirigindo-se aos vencedores do Prémio Zayed 2022, Francisco evocou o compromisso do casal real da Jordânia “em acolher um grande número de refugiados e em promover os valores da convivência, do diálogo entre as diferentes tradições religiosas, na luta contra a discriminação e em prol da emancipação dos jovens e das mulheres” e considerou a Jordânia um modelo de tolerância e convivência e o prémio como um reconhecimento “também a todo o povo jordaniano, que com determinação e coragem, apesar das muitas dificuldades, segue o caminho da paz, da moderação e da rejeição da violência”.

E, ao congratular-se com a Fokal, o Pontífice recordou que o povo do Haiti está presente no seu coração e nas suas orações; e agradeceu à fundadora da Fokal, Michèle Pierre-Louis, pelo seu compromisso ao serviço do bem comum e da defesa dos direitos humanos, em particular da educação e da formação das novas gerações. Na verdade, como acentuou, “há necessidade de paixão e de criatividade para restituir ao Haiti a perspetiva concreta de um futuro melhor”, já que “o povo haitiano sofreu muito por causa dos muitos desastres naturais, problemas sociais e emergências humanitárias”. Por isso, exortou a que “rezemos pelo Haiti: um povo bom, um povo benévolo, um povo religioso que está sofrendo muito”.

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Praça de São Pedro em silêncio na oração pela Ucrânia: todos os esforços pela paz. (Vatican News)

Após a recitação do Angelus com a multidão presente na Praça de São Pedro no dia 27 de fevereiro, novo apelo pela Ucrânia se ergueu pela voz do Papa: Calem-se as armas. Quem faz a guerra esquece a humanidade!

Com efeito, segundo o Pontífice, “as pessoas simples desejam a paz, mas pagam na própria pele pelas loucuras da guerra” pelo que “são necessários corredores humanitários para aqueles que buscam refúgio”. E, recordando os conflitos na Síria, Etiópia e Iémen, o Papa enfatiza: Deus está com os construtores de paz, não com aqueles que usam a violência.”

É a voz do Bispo de Roma “uma voz contra o barulho dos mísseis, que o crepitar das armas não enfraquece” e “uma voz sobre uma grande praça, mas, acima de tudo, sobre as consciências”. É uma voz não ouvida pelos que estão a provocar o derramamento de sangue e a transformar um pedaço da Europa num campo de batalha, mas que não recua: Nestes dias, ficamos abalados por algo trágico: a guerra. Muitas vezes rezamos para que este caminho não fosse percorrido. E não paramos de falar; pelo contrário, suplicamos a Deus com mais intensidade.

Esta mensagem do Papa no pós-Angelus constitui um estribilho comum a todos os últimos apelos. A guerra da Rússia com a Ucrânia tornava mais urgente a convocação, para Quarta-feira de Cinzas, do Dia de Oração e Jejum, para que a paz retorne onde pessoas indefesas buscam refúgio ou morrem, onde “as mães estão em fuga com os seus filhos…”. Por isso, o propósito-convite de Francisco é rezarmos “para sentirmos que somos todos irmãos e irmãs e para implorarmos a Deus o fim da guerra”. Depois, considerando que a verdadeira vítima da guerra é o povo, o Santo Padre explicita a lógica da guerra nos termos seguintes: Quem faz a guerra esquece a humanidade. Não parte do povo, não olha para a vida concreta das pessoas, mas coloca diante de tudo interesses de parte e de poder. Baseia-se na lógica diabólica e perversa das armas, que é a mais distante da vontade de Deus. E distancia-se das pessoas comuns, que desejam a paz; e que em cada conflito – pessoas comuns – são as verdadeiras vítimas, que pagam as loucuras da guerra com a própria pele.

Papa Francisco (Andreas Solaro – Pool via REUTERS)

E olhando a guerra em pedaços ou os pedaços de guerras que não devem ser esquecidos, sublinha a urgência de abrir “corredores humanitários” para os idosos, para as crianças e para as pessoas que procuram refúgio; pois, são irmãos e irmãs “que devem ser acolhidos”. E, mais uma vez, a voz se move sobre o mundo das guerras “em pedaços” e exorta reiteradamente de coração dilacerado: Calem-se as armas! Deus está com os construtores de paz, não com aqueles que usam a violência.

E, citando a Constituição italiana, concluiu: Aqueles que amam a paz repudiam a guerra como instrumento de ofensa à liberdade de outros povos e como meio de resolver disputas…

Bandeiras ucranianas na Praça de São Pedro. (Vatican News)

Nisto, bandeiras ucranianas na Praça São Pedro balançaram em sinal de agradecimento ao Papa. E Francisco saudou os ucranianos no seu idioma: “Хвала Ісусу Христу” (Louvado seja Jesus Cristo).

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No dia 25 de fevereiro, Francisco, num gesto inédito, foi pessoalmente à embaixada da Federação Russa, junto da Santa Sé, na Via della Conciliazione, deslocando-se num carro utilitário e falou com o embaixador, solicitando que, junto do Governo russo, interceda pelo fim da guerra.

Este é um dos pontos que o cardeal Pietro Parolin, secretário de Estado da Santa Sé, foca na entrevista a quatro jornalistas italianos sobre o momento presente de guerra na Europa, de que dá conta o Vatican News

Segundo o purpurado, a propagação do conflito ucraniano para o resto da Europa seria uma “catástrofe gigantesca”. Foi o que ele disse ao Il Corriere della Sera, La Repubblica, La Stampa e ao Il Messaggero, desejando que se evite qualquer escalada militar, que se detenham as bombas e se abram as negociações, para as quais “nunca é tarde demais”. E Parolin assegurou que a Santa Sé está “pronta para facilitar as negociações entre a Rússia e a Ucrânia”.

Quanto à possibilidade de o conflito se alargar, envolvendo diretamente outros países europeus face ao envio de armamentos para a Ucrânia, o secretário de Estado não se contém: Nem me atrevo a pensar isso. Seria uma catástrofe de proporções gigantescas, ainda que, infelizmente, não seja uma eventualidade a ser totalmente descartada. Vi que as situações que precederam e provocaram a II Guerra Mundial foram evocadas em algumas das declarações dos últimos dias. São referências que fazem estremecer.

Para evitar tal perigo, Parolin entende que “devemos evitar qualquer escalada, deter os confrontos e negociar” e que “o eventual retorno a ‘uma nova guerra fria com dois blocos opostos’ também é um cenário perturbador”, indo contra a cultura de fraternidade que Francisco propõe como “único caminho para construir um mundo justo, solidário e pacífico”.

Da possibilidade de uma negociação e um possível papel da Santa Sé, o cardeal disse: Estou convicto de que sempre há espaço para negociação. Nunca é tarde demais! A única forma racional e construtiva de resolver as diferenças é através do diálogo, como o Papa Francisco não se cansa de repetir. A Santa Sé, que nos últimos anos tem acompanhado de forma constante, discreta e com grande atenção os acontecimentos na Ucrânia, oferecendo a sua disponibilidade para facilitar o diálogo com a Rússia, está sempre pronta a ajudar as partes a retomar este caminho.

Sobre a inédita e surpreendente visita do Papa à sede diplomática da Federação Russa, Parolin aproveitou a ocasião para renovar o convite urgente que o Santo Padre fez, a fim de cessarem os combates e de voltarem às negociações, observando que “o ataque militar deve ser interrompido imediatamente, pois já estamos testemunhando as suas consequências trágicas”. E recordou as palavras do Beato Pio XII, a 24 de agosto de 1939, antes da eclosão da II Guerra Mundial: Que os homens voltem a se entender. Que voltem a negociar. Ao tratar com boa vontade e com respeito pelos direitos recíprocos, descobrirão que as negociações sinceras e eficazes nunca são excluídas de um sucesso honroso.

Encontro no Vaticano, em 15 de Novembro de 2019.  (Vatican News)

O Secretário de Estado Vaticano evocou também as divergências entre as Igrejas: Na História da Igreja, infelizmente, nunca faltaram particularismos que levaram a muitas divisões dolorosas, como São Paulo testemunha na origem do cristianismo, exortando a superá-los. Nesse sentido, vemos sinais encorajadores nos apelos dos Chefes das Igrejas Ortodoxas, que se mostram disponíveis para deixarem de lado a memória das feridas recíprocas e para trabalharem pela paz. (…) Concordam em manifestar grande preocupação com a situação e em afirmar que, além de qualquer outra consideração, os valores da paz e da vida humana são o que realmente importa para as Igrejas, que podem desempenhar um papel fundamental para evitar um maior agravamento da situação.

E, voltando ao conflito, declarou que “precisamos de comunicar e de ouvir mutuamente para conhecermos e entendermos as razões dos outros”, pois, deixando de comunicar e de ouvir com sinceridade, “olhamos para o outro com desconfiança e acabamos por trocar acusações recíprocas”. E frisou: Os acontecimentos dos últimos meses não fizeram nada além de alimentarem a surdez recíproca, levando a um conflito aberto. As aspirações de cada país e a sua legitimidade devem ser objeto de uma reflexão comum, num contexto mais amplo e, sobretudo, levando em conta as escolhas dos cidadãos e no respeito pelo direito internacional. A história não deixa de oferecer exemplos que confirmam que isso é possível.

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A referência de Parolin às religiões sugere-me a releitura do artigo “A Virgem de Vladimir e o risco de uma guerra”, do ucraniano Vitaly Venislavskyy, publicado no “7 Margens” a 20 de fevereiro (de que se respigam alguns dados), que fala do putativo elemento religioso na presente guerra, embora o conceito de “guerra santa” esteja muito distante, pelo que “já não se fazem guerras em torno de ícones religiosos e da própria confissão religiosa de sociedades” na Europa. Não obstante, aponta que, para lá do conflito armado existente no leste da Ucrânia e o risco de então de invasão russa, há outro conflito: o da concorrência entre a Igreja Ortodoxa Russa e a Ucraniana.

Patriarca Bartolomeu Epifânio, da Ucrânia. (7 Margens)

A Igreja Ortodoxa Ucraniana, em 2019, tornou-se autocéfala pelo Thomos (“Decreto”) patriarcal, do Patriarca Ecuménico de Constantinopla, Bartolomeu I. Porém, segundo os cânones ortodoxos, a autocefalia de uma Igreja Ortodoxa, para ser completa, deve ser reconhecida por todas as outras. E a Igreja Ortodoxa Ucraniana não foi reconhecida pelo Patriarcado de Moscovo, que mantém a adesão de algumas das principais paróquias da Ucrânia e uma comunidade aderente numerosa, não sendo, ainda assim, superior à da Igreja Ortodoxa Ucraniana. Ora, para a Rússia, com um poder político baseado em valores conservadores e religiosos onde a ligação entre a Igreja e o Estado é vincada, uma Igreja autocéfala na Ucrânia, país de que Moscovo precisa como aliado e alinhado com as suas conceções, é um perigo; e, para a Ucrânia, representa a oportunidade de reforçar a sua luta constante para a autodeterminação da sua nação.

Assim, por trás de motivações políticas na situação, há fatores culturais e religiosos que remetem para um evento histórico ocorrido em meados do século XII: o sequestro do Teótoco de Vladimir (ou Nossa Senhora de Vladimir), que estava exposto em Kyiv (Kiev). Então, a Europa de Leste era dominada pelo poderoso império Rus (ou Ruteniano), que se estendia do Mar Báltico ao Mar Negro e servia de comunicação entre os povos nórdicos e a poderosa capital bizantina. Era a aliança de ducados sob a hegemonia do grão-ducado de Kyiv, cujo titular era eleito de entre os vários duques por uma assembleia (Vitche), não havendo o direito de sucessão, o que levava a que os momentos de escolha do novo grão-duque originassem muitos confrontos e guerras intestinas.

Em 1149, o grão-ducado de Kyiv foi tomado por Jorge I de Kyiv, conhecido por Jorge Longímano (Iuri Dolgorukii) que ocupou o lugar de grão-duque até 1150 e, depois, desde 1155 até 1157, ano da sua morte e em que é eleito para novo grão-duque Izaslav III, que fica no poder até 1169, quando o filho de Jorge Longímano, André I de Vladimir, conhecido por André de Bogoliubovo, duque de Vladimir-Susdália, ducado muito longínquo (colónia do Império Ruteniano) ataca Kyiv, destrói grande parte da cidade e sequestra o Teótoco de Vyshgorod  (Nossa Senhora da Cidade Alta de Kyiv) para Vladimir, capital do Ducado de André I, onde passa a ser denominado e mundialmente conhecido como o Teótoco de Vladimir. “Teótoco”, do grego, significa “Portadora de Deus” ou “Mãe de Deus” e este ícone é, segundo as crenças cristãs ortodoxas, o primeiro ícone da História, desenhado pelo evangelista Lucas numa placa retirada das mesas a que Nossa Senhora e Jesus se sentavam. Por volta de 450, o ícone foi de Jerusalém para Constantinopla e, por volta de 1156, o Patriarca de Constantinopla, Lucas Crisoberges, enviou-o ao grão-duque Jorge Longímano.

Traçada a rota do ícone, que está na Galeria de Tretyakov, em Moscovo, é de explicar a relevância que tem para a Rússia e para a Ucrânia. Antes de atacar e destruir Kyiv, em 1162, André de Bogoliubovo enviou uma embaixada a Constantinopla, capital bizantina, para obter o direito de criar a sua própria sé metropolitana independente em Vladimir, com Teodoro como metropolita, o que lhe foi negado. Após ter atacado Kyiv, André não permaneceu na cidade, mas proclamou-se grão-duque e retornou a Vladimir, querendo torná-la a capital do Império Ruteniano e levar o metropolita de Kyiv a ter de ir para Vladimir, fazendo da cidade o centro religioso do cristianismo ortodoxo ruteniano.

É questionável o elo consequencial de um acontecimento do século XII, num país que já só existe na memória e em relatos literários, com o risco da escalada de uma nova guerra global. E esta situação não o explica, mas o que vem à discussão é o momento chave em que se formularam as pretensões políticas de uma sociedade (a russa) face ao pensamento político de outra (a ucraniana). Todavia, este impacto não se vê apenas na construção política de uma sociedade, mas também na formulação das estratégias de expansão que tem na Ucrânia a Igreja Ortodoxa Russa, a qual, ao invés da sua própria retórica, nasceu no século XVIII, quando Pedro I da Rússia venceu a guerra contra o Império Otomano e obrigou o sultão a pressionar o Patriarca de Constantinopla a emitir o Thomos, pelo qual ela obteve a autocefalia. Porém, assume a sua formulação com o Batismo da Ruténia, em 988, pelo grão-duque de Kyiv, Volodymyr, o Grande. E Moscovo procura a retórica civilizacional contínua no espaço e no tempo de uma sociedade russa moderna com as raízes numa sociedade de referência, do período pré-Clássico (no século VIII a.C.), que passa pelo período ruteniano, se formula na Rússia Imperial, se confirma na URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas) e renasce na Federação Russa.

Porém, é de questionar se a interpretação, consequências e impacto deste facto nos permitem concluir que as nossas crenças serão fortes o suficiente para nos fazerem conflituar com outros homens, em nome da busca da verdade absoluta. Assim, o motivo religioso que Putin invocou é descabido.

 Louro de Carvalho

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