«Um fracasso da política e da humanidade»

«É destruídos que estamos desde esta hora! É destruídos que estamos na certa!» – começo com estas frases que o irlandês James Joyce utilizou no seu romance «Ulisses» (publicado em 1922), na sequência de uma runa plangente que ocorre em orações e rituais católicos: «Pogue Mahone! Acushla machree!» É, certamente, uma hora muito difícil para todos, sobretudo para os Ucranianos que sofrem a invasão russa, estando Kiev a ser atingida por insistentes explosões, algumas predefinidas pelos ponteiros dos relógios.
Até ao momento em que escrevo esta crónica, no terceiro dia de guerra, a manhã despertou ao som das sirenes e com um ataque aéreo de larga dimensão sobre as cidades de Sumy, Poltava e Mariupol, enquanto os mísseis de cruzeiro russos lançados a partir do Mar Negro estilhaçam o futuro do Leste da Europa.
Cansados do combate a uma pandemia, vemos iniciar outra guerra: mais uma página sangrenta e indecifrável na História dos humanos. «Qualquer guerra deixa o mundo pior do que era antes. A guerra é um fracasso da política e da humanidade, uma capitulação vergonhosa, uma derrota pungente diante das forças do mal», diz o Papa Francisco, como informa um «tweet» de Christopher White, correspondente do Vaticano para o jornal norte-americano «National Catholic Reporter» (NCRonline).
Recuperando um excerto de «Foi Chrétienne et Pensée Contemporaine», obra de Albert Dondeyne divulgada em 1961, podemos reflectir sobre a importância da História: «Ao mesmo tempo que a sua visão se prolonga no passado mais longínquo, o homem moderno possui uma consciência extremamente viva e activa do futuro. O futuro para ele não é a outra metade do filme que se deve desenrolar antes que chegue o fim do mundo e relativamente ao qual não teríamos outro papel a desempenhar senão o de espectador que espera.» Infelizmente, seis décadas depois de Dondeyne ter lançado estas palavras de esperança, a realidade actual – já distante da emergência dos conceitos marxistas – parece querer negar o que há de melhor nas gerações presentes. No entanto, ainda subscrevo este autor, quando afirma que «a consciência histórica própria do nosso tempo está ligada ao facto de termos uma consciência muito viva do nosso ser como liberdade incarnada, como ser no mundo».
Também na pele de jornalista, procuro encontrar na História o essencial para compreender «quem somos» e para «nos posicionarmos no mundo», apropriando-me das palavras do actual director da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Rui Gama, que prefacia o livro «O Jornalismo e a História», coordenado por João Figueira e Ana Teresa Peixinho, em homenagem a Isabel Nobre Vargues, a quem devo um outro olhar sobre a mediação jornalística, a propósito de um vasto conjunto de problemáticas críticas, atendendo aos valores da cidadania, da liberdade e da responsabilidade individual e comunitária.
E termino esta crónica, regressando à leitura do centenário «Ulisses», com vontade de saber o que se passa com o protagonista (o judeu irlandês Leopold Bloom), no decurso da sua peregrinação interior, quando sai de casa para comprar os rins que a mulher adora comer, fritos em manteiga, ao pequeno-almoço. Em cada parágrafo deste livro que muita gente considerou obsceno, redescubro a invenção da palavra que espelha, ao jeito de um «puzzle», várias culturas, metafísicas, filosofias, preces e magias.

Vitalino José Santos
(«Diário de Coimbra»: DA RAIZ E DO ESPANTO, 27.02.2022)
 

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