Recordando Zeca Afonso

De José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos, por todos conhecido como Zeca Afonso, muito se tem dito e, no entanto, ficará sempre muito mais por dizer. A sua vida narrou-a ele próprio, através de uma torrente incessante de episódios de luta por ideais tão fortes e profundos que não cabiam em qualquer outro universo, por mais amplo que fosse.
A 2 de Agosto completaria 92 anos. Mas, os astros não se alinharam nessa direcção, pois a sua morte prematura, ocorrida a 23 de Fevereiro de 1987, projectá-lo-ia noutra dimensão, aos 58 anos de idade!
Definindo-se como filho da pequena ou média burguesia, renegou, ao longo da vida, essa mesma condição, pondo em causa valores e princípios próprios desse estrato social. Fiel aos seus princípios, os recursos financeiros foram-lhe sempre escassos, apesar de uma vida de intenso trabalho em prol de uma sociedade mais justa e igualitária.
Zeca Afonso viveu intensamente, movido por uma actividade interior frenética, alicerçada numa mente irrequieta e brilhante, a qual não lhe daria tréguas, resultando num cansaço físico e emocional excessivo! Isso mesmo ele constataria, quando foi surpreendido pela doença que o vitimou.
Ainda teve a ilusão de que a enfermidade o poupasse! Foi nesse estado de esperança que o encontrámos, quando o visitámos, na então Clínica de Cirurgia Santa Isabel, dirigida pelo Dr. Manuel Montezuma de Carvalho, em Coimbra, onde se submeteu a um tratamento considerado inovador. Com a vivacidade que lhe era peculiar, mas com o abatimento próprio da doença, ergueu os braços e exclamou: «Vejam como eu já consigo levantar os braços!». Aí, percebemos que se tratava de um movimento que anteriormente não podia ter feito e que, entretanto, recuperara. Foi comovente constatar a transformação de um corpo que antes não admitia fragilidades nem derrotas. As tão esperadas melhoras não progrediram e a fatalidade da morte viria, passado o pouco tempo de esperança.
Espírito livre e inconformado, de uma rebeldia pura e genuína, abraçou a causa da música para dar a palavra aos que não se podiam fazer ouvir! E, nisto, foi um verdadeiro génio! Pois, não tendo estudos musicais, teve a ousadia de se adensar por caminhos que estudiosos da matéria jamais sonhariam. Agarrou em temas da música tradicional popular e fez deles o que todos conhecemos! Criou letras assombrosas, marcadas por um profundo significado e deu-lhes a musicalidade e as sonoridades próprias de alguém com uma imaginação e uma capacidade criativa fora do comum!
Admirado e amado por muitos, sobretudo por aqueles a quem a sua mensagem era particularmente dirigida, mas não só, contou também com grandes inimigos, que viam na sua actividade política e na conscientização de massas um perigo para a «estabilidade social» e para o statu quo instalados.
Foi com um prazer nostálgico que assistimos, na RTP1, a um documentário sobre a sua vida e obra, bem como ao concerto televisivo «O Cantinho do Zeca», que juntou vários artistas portugueses para celebrar José Afonso, tendo sido recriadas, em estilo leve e descontraído, algumas das suas canções mais emblemáticas, com direcção artística do cantor, compositor e produtor musical Agir.
Rosa Morais Pereira

 

 

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