A paz que se escondeu num livro

Vim ao mundo no seio de uma família numerosa, ocupando o oitavo e último lugar na prole. Sem as mordomias que hoje rodeiam as crianças, posso assegurar que brinquedos nunca me faltaram. Criados por mim e pela minha mãe, uns; oferecidos pela Natureza, outros. Com tantos irmãos à minha volta, a palavra monotonia não fazia parte do meu dicionário.
Brincávamos livremente na rua, num tempo em que, na minha aldeia, as pessoas quando saíam deixavam a chave no lado exterior da porta, garantindo que os vizinhos, em caso de necessidade, tivessem acesso ao interior da casa.
Em mim, ia crescendo um forte sentimento de pertença à família e à comunidade local. Ainda hoje, quando nos reunimos, o reviver das peripécias deste período faz detonar em nós ruidosas gargalhadas. Era feito de paz e de simplicidade o nosso dia-a-dia de então. Os dez anos da minha infância risonha e feliz equilibram ainda a balança da minha vida.
Mas o destino, traiçoeiro, forjara o seu plano para me separar das risadas e das traquinices dos meus irmãos e da serena autoridade da minha mãe. Ainda menina, deixei o ninho em busca do conhecimento que a escola da aldeia já não podia proporcionar. Aos poucos, o tempo encarregou-se de levar todos, um a um, para outras latitudes, onde se juntaram ao pai. Entre nós o oceano.
Enquanto eu, sozinha, progredia nos estudos e na vida, por lá eram cada vez de maior vulto os empreendimentos. Nessas paragens, aponta ainda para o céu um edifício com o nome da minha mãe e um outro com o nome da nossa terra natal. As origens tornaram-se memória, mesmo em terras alheias do fim do mundo.
Décadas volvidas, com saudades sem tamanho e os cabelos esbranquiçados, os afoitos viajantes, paulatinamente, encetaram o caminho de regresso a Portugal. Nem todos!
Como nas outras famílias, nem sempre os seus elementos agem em sintonia. As personalidades desenvolvem-se em sentidos diversos porque são diversas as circunstâncias. Surgem, assim, desencontros decorrentes de diferentes modos de encarar a realidade.
Um mal-entendido afastou um dos meus irmãos de outros dois, todos em pleno Outono das suas existências. Repetiram-se as tentativas de apaziguamento, sem sucesso. Irredutível, um deles formalizara já o caminho conducente à penalização dos «prevaricadores». Eu própria atravessei o Atlântico com a secreta missão de erguer a bandeira da paz. Frustrada a missão, voltei de mãos vazias.
A rotina esperava por mim, pelo que prossegui com a tarefa da altura: elaborar a árvore genealógica da família, numa paciente e silenciosa procura em páginas gastas e amarelecidas, guardadas nas gavetas do tempo. Após meses na Torre do Tombo, em Lisboa, e também no Arquivo de Santarém e de Leiria, dei o trabalho por concluído.
Na posse de uma infinidade de informações sobre o passado a que as investigações me conduziram, uma ideia aflorou e ganhou forma no meu espírito: escrever um livro que só poderia chamar-se «História da Minha Família».
Com verdadeiro entusiasmo, escrevi acerca dos nossos antepassados e das suas terras de origem, da proveniência e do percurso dos nossos apelidos, dos nossos jogos de infância, do cheiro a pão a sair do forno, das nossas brincadeiras na eira ao luar, dos serões à lareira, dos preceitos e regras a cumprir, da respeitosa harmonia em que vivíamos, de outros episódios pitorescos, do calor humano que nos enchia a casa e o coração. Não tive outra intenção, senão recriar as vivências de outrora, privilegiando o mundo dos afectos.
Com o trabalho já em livro, ofereci um exemplar a cada familiar, tendo alguns voado para outro continente. Foi deste modo que um volume aterrou nas mãos do meu irmão «afastado». Decorria o ano de 2014.
Conta quem viu que o meu irmão passou vários dias de olhos postos na capa com a fotografia da família, na qual eu própria, de laço na cabeça, não teria mais de três anos. Em silêncio, olhava fixamente a foto enquanto, acredito eu, interiormente ia desenrolando o fio das lembranças daquele tempo longínquo. Quem com ele vivia percebeu que, nos seus olhos, lhe nasciam lágrimas.
As suas mãos hesitantes e trémulas conseguiram, por fim, coragem para espreitar o interior do livro, mas a leitura ficaria, ainda assim, adiada. Depois de rios chorados, o meu irmão iniciou a leitura pausada e sentida. Ele que, por opção, passara quase toda a vida além-mar, como poderia ver-se agora frente-a-frente com um tempo que procurara esquecer? Remexer no passado destapava-lhe feridas.
As imagens e a narrativa evocavam-lhe o palco da terra natal, os jogos da infância, a inocente malandrice daqueles verdes anos, os bailaricos, as picardias entre irmãos, a reza em família antes de deitar e muitas outras cenas de uma vida de simplicidade e de verdade. A realidade da qual fugira foi ter com ele, na bandeja das páginas de um livro.
O seu íntimo, em tumulto, deixou-se tocar por um não-sei-quê que lhe toldou a alma e abalou, de forma profunda, o seu espírito justiceiro.
Em silenciosa inquietação, o meu irmão leu o livro do princípio ao fim. Terminada a leitura, pegou em duas folhas de papel e nelas escreveu duas cartas nas quais pedia desculpa aos dois irmãos que o tribunal da sua consciência já havia condenado e banido do seu coração. As cartas chegaram-me por correio electrónico, através do qual o seu filho me confidenciou: – O que nenhum de nós conseguiu pela palavra, conseguiu a tia com o seu livro!
Nesse instante eterno, conheci o sentido absoluto da palavra «FELICIDADE». Incrédula, apertei os pedidos de desculpa contra o peito e rios de gratidão escorreram-me pela face. Uma certeza pairava no meu espírito, a de que este terá sido dos melhores presentes da minha vida.
É certo que, nesta história real, se trata de um caso isolado. Ou seja, de uma paz pequenina e particular, enquanto nós sonhamos com uma paz que abrace o mundo inteiro. Que o sentimento de impotência para o conseguir não nos paralise. De resto, conhecemos exemplos de sobra de quem se agigantou na procura da Paz. Deixemo-nos, pois, seduzir por essas figuras inspiradoras e façamos a nossa parte, por insignificante que nos possa parecer.
Passados sete anos sobre os factos narrados, ainda dou comigo a pensar quão diversos são os caminhos da PAZ. Não importa quando, como, porquê ou qual a via a percorrer. O que, realmente, interessa é chegar à PAZ. Paz que, neste caso, se escondeu num livro!
Zulmira Bento (Coimbra, Junho de 2021)

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