Sem Razão

 

29 de Setembro de 2018

         Tive e tenho alguns inimigos, lamento muito mas é assim. Como nasce uma inimizade não sei. Qualquer generalização me parece arbitrária, custa-me também dar crédito à tese de que os inimigos são indispensáveis para nos definirmos e reforçarmos a nossa identidade. Eu não senti nunca essa necessidade, as inimizades não me deram senão ansiedades, dispensá-las-ia de bom grado. Por outro lado, não há dúvida de que a história do género humano é sobretudo uma história de inimizades e não podemos liquidar o problema com um encolher de ombros. Digamos portanto que não apaixonam as inimizades imediatamente redutíveis a uma razão determinada: a posse de uma nascente, a posse de poços de petróleo, a posse de uma região, etc. Desembocam tradicionalmente no homicídio, na guerra, no massacre, e causam-me simplesmente horror. Para não falarmos depois das pequenas inimizades que nascem constantemente no quotidiano, das devidas a uma grosseria, a uma palavra ordinária, a uma maledicência, a uma promessa não cumprida, a um engano. São comportamentos ocasionais, por vezes arrependemo-nos deles, por vezes pedimos desculpa, muitas vezes inutilmente. Metem-me medo, temo ser arrastada para pequenos conflitos sempre próximos de grandes manifestações de ferocidade. Mas sobretudo parece-me insuportável ocupar-me de imbecilidades e viver agitada por motivos fúteis. Na realidade, entre todas as inimizades possíveis, só me interessam deveras as sem razão, as que se podem resumir assim: “O que é que te fez?”, “Não sei, só vê-la dá-me nervos”. Aqui tenho a impressão de que vale a pena investigar, a velha fórmula da antipatia pessoal parece-me insuficiente. Que acontece aos nossos corpos quando um repele o outro? Porque é que certas pessoas nos parecem tão diferentes de nós, que não conseguimos aceitá-las, reconhecer a sua humanidade? Bastaria um pouco de boa vontade para que deixassem de existir motivos de inimizade? Conheço histórias de rejeições puras completamente imotivadas, que por isso mesmo me parecem literariamente aliciantes. Intrigam-me em particular essas relações – entre homens, entre mulheres, entre homens e mulheres – em que tudo começa pelo interesse recíproco e pelo recíproco respeito. As duas pessoas sentem-se bem uma com a outra, há curiosidade, boa disposição. Depois começam os mal-estares, uma certa exasperação, um fumo que irrita os olhos e a garganta. Há qualquer coisa que já não funciona, mas não é facilmente identificável. Até que um dia uma das pessoas diz: Já chega, prefiro não me dar mais contigo. E a relação sofre uma interrupção séria. Uma proximidade benevolente sempre que possível, sem que haja uma razão que as palavras saibam dizer. Nos casos deste tipo, suspeito que haja qualquer coisa que, se contada até ao fim, nos faria dar alguns passos em frente. Talvez um inimigo seja simplesmente alguém que se subtraiu por uma espécie de exaustão emocional ao esforço, à complexidade, ao prazer e a todas as ambiguidades da amizade.

Crónica de Elena Ferrante (com tradução de Miguel Serras Pereira), 
incluída no livro «A Invenção Ocasional»,
Relógio D’Água Editores, Lisboa, Julho de 2019.

FOTO: Sebastián León Prado – unsplash.com

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