Confessar

4 de Agosto de 2018

         É uma questão de disciplina. Aprendi que os maus sentimentos são inaceitáveis e que, se quisermos ser pessoas honestas para connosco e para com os outros, é necessário impormo-nos confessá-los. Como? Antes do mais esforçando-nos por não os disfarçarmos de sentimentos de pessoa impávida que põe a verdade em primeiro lugar. Por exemplo, atormenta-nos a amiga de bom feitio que agrada a todos, enquanto nós temos de nos esforçar a fundo para obtermos uma migalha de simpatia? Bem, evitaremos reagir apregoando em redor que tanto sucesso é o fruto de uma hipocrisia habilmente gerida. Evitaremos sobretudo justificar a nossa maledicência sublinhando a todo o momento: É o meu amor à verdade que me impele a denunciar a hipocrisia dela; se o não fizesse, seria tão hipócrita como ela. Ensinar-nos-emos antes a pensar que o bom feitio existe na natureza e que reduzi-lo imediatamente a um exercício de hipocrisia é simplesmente sinal da inveja que experimentamos diante do sucesso da nossa amiga. O esforço será naturalmente grande e de resto não nos trará qualquer proveito: a inveja persistirá do mesmo modo que o nosso sofrimento de pessoas invejosas. Antes decerto comprovaremos que nos sentíamos melhor quando recitávamos o papel da pessoa sem papas na língua, combatendo a falsidade que impede de distinguir o que é sério e o que o não é. Que fazer então? Será preciso um esforço mais. Será necessário encontrarmos o tom certo para dizermos à nossa amiga que o seu sucesso nos faz sofrer, que a invejamos, que temos vergonha de nós quando, para nos sentirmos melhor, em vez de admitirmos que ela possui qualidades que não temos, nos pomos a denunciá-la em redor como hipócrita. Se conseguirmos fazê-lo, teremos dado dois grandes passos em frente: primeiro, teremos descoberto que se defende a verdade dizendo antes de mais a verdade sobre nós próprias; e, segundo, que adquirimos algo muito mais admirável do que um bom feitio natural: a capacidade de nos autoexaminarmos e de nos autogovernarmos. Pois sim, mas se a nossa amiga for realmente uma hipócrita? Paciência. O jogo dos hipócritas é frágil, ela em breve será descoberta, pagará pela sua hipocrisia e nós rejubilaremos. Rejubilaremos ainda que não seja bonito fazê-lo e tenhamos de nos confrontar uma vez mais com um péssimo sentimento: o prazer de assistir à decadência das pessoas com sucesso, a satisfação de registar a sua confusão e o seu desespero perante o fim de um tempo feliz. Como procederemos então? Declararemos que tínhamos acertado, apregoaremos triunfalmente em redor que fôramos as primeiras a adivinhar que a nossa amiga – já não nossa amiga daqui em diante – era uma hipócrita? Não, mas faremos uma vez mais um esforço de verdade sobre nós próprias. Admitiremos que nos regozijámos com as desventuras alheias, admitiremos que nos aliviar[a]m. Desde Agostinho de Hipona, falarmos com feroz franqueza não aos outros mas a nós por vezes pode de facto salvar-nos.

Crónica de Elena Ferrante (com tradução de Miguel Serras Pereira), 
incluída no livro «A Invenção Ocasional»,
Relógio D’Água Editores, Lisboa, Julho de 2019.
FOTO: Dimitry Zub - Unsplash.

 

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