Quando o ter troca as voltas ao ser

Não é convidada a entrar nas nossas casas, também não lhe abrimos a porta de boa vontade, nem fazemos qualquer gesto que lhe permita intuir que a desejaríamos ter connosco.

Mas, nada disto é preciso. Pois, sem pedir licença nem esperar autorização, ei-la que avança, instala-se, impõe-se no nosso quotidiano, através do campo visual. Invade a nossa capacidade auditiva, insidia-se de formas e modos cada mais sofisticados e permanece junto de nós o tempo que lhe apetece, quer queiramos ou não tê-la por companhia.

Escolhe, com rigor, momentos precisos para captar a nossa atenção, recorrendo aos meios mais convenientes (principalmente, os mass media, envolvendo as redes sociais e os outdoors, entre outros).  Envia-nos, ostensiva ou sub-repticiamente, mensagens tentadoras, tornando-se difícil renunciar aos seus apelos encantatórios. E, incautos e descuidados, facilmente somos apanhados na teia dos seus interesses libidinosos, vendo-nos em apuros e com sérias dificuldades para nos livrar-nos das suas potentes e desmedidas garras.

É ela que, com toda a sua pujança e consciente do seu poder, dá pelo nome de PUBLICIDADE! 

Apela aos sentimentos mais básicos do ser humano:  desejo de posse, ambição sem limites, competição desenfreada, vencer a todo o custo, não olhar a meios para alcançar fins, ausência de ética.

Desafiando, em nós, um falso sentido de originalidade, arrasta-nos exactamente para o campo oposto da imitação, igualizando comportamentos, hábitos, maneiras de ser e de estar, isentando-nos de pensar pelos nossos próprios princípios ou juízos de valor.

Endeusando a «marca», impele-nos para uma corrida vertiginosa na procura do produto recomendado, tantas vezes quase inacessível à maioria dos consumidores que, ironicamente, encontraram no produto de contrafacção uma forma de aceder ao que parecia financeiramente impossível, «democratizando», deste modo, o poder de compra cada vez menor, face às múltiplas solicitações.

É o reinado do consumo sem limites, levando a adquirir todo o tipo de bens, na maioria das vezes, supérfluos e que, dentro de pouco tempo, conhecerão os contentores do lixo, para dar lugar a outros que, em breve, terão igual destino.

E a vida do ser humano parece também ela consumada e consumida nesta volição escorregadia e tormentosa do poder de aquisição, na permanente ilusão de satisfazer o ser interior de cada um de nós.

Arrastados pelos ditames da publicidade,  perdemos  o sentido da originalidade, o poder de criatividade, ainda que ilusoriamente julguemos trabalhar em busca da mesma.

Todavia, para que tudo isto seja possível, a sociedade criou esquemas fictícios facilitadores do poder aquisitivo, também eles objectos de intensa publicidade, permitindo o acesso a créditos financeiros que têm levado à ruína de tantos indivíduos, famílias e empresas.

Neste turbilhão aquisitivo – em que iludimos o bem-estar, a satisfação, a serenidade e a paz interior –, somos conduzidos a elevados níveis de descontentamento e de conflito interno e interpessoal, pondo, muitas vezes, em causa a própria sanidade mental.

Assim, devemos estar atentos a estas dinâmicas destruidoras do ser humano. Para isso, precisamos de criar e/ou de dispor de estratégias educativas que passam não só por programas de consciencialização deste fenómeno, mas igualmente por planos de alteração dos nossos comportamentos e atitudes, permitindo que o foco da nossa acção não confunda duas realidades distintas: «ser» e «ter».

Ao procurarmos uma sociedade mais centrada nas pessoas, em detrimento da que se norteia para a posse das coisas e dos bens materiais, evocamos um poeta popular que, na sua sabedoria profunda e genuína, condensou, numa quadra memorável, esta preciosa reflexão:

Mais vale o ser do que o ter
Cá na minha opinião
O ser é p'ra toda a vida
O ter ou será ou não.

Rosa Morais Pereira

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