As dinâmicas exclusivistas e a harmonia social

A Primavera já chegou, mas as nuvens teimam em tapar-nos o Sol! Talvez por isso, o Presidente da República, ao participar na sessão de abertura da recente conferência sobre saúde global, organizada pela Direcção-Geral da Saúde e pelo ministério que a tutela, tenha declarado – numa mensagem previamente gravada em vídeo – que, «apesar de esforços colectivos, houve muito egoísmo, houve muito isolacionismo, houve muito individualismo» ao longo da pandemia da covid-19 e que se observou o «acentuar de desigualdades e de diferenças entre pessoas, funções, territórios, povos».

Esta sensação não nos é estranha. Têm sido incontáveis e também inconsequentes os debates e as sérias reflexões que, no escoar dos séculos, procuraram compreender os comportamentos humanos e as dinâmicas sociais exclusivistas. Insolúvel é aquilo que não se pode dissolver, afirmam os peritos em lexicografia, possivelmente na esperança de que se renove o sentido inclusivo das palavras; principalmente, das que envolvem as categorias sistémicas de género, de família e de etnia, entre muitas outras.

No terceiro volume de «Em Busca do Tempo Perdido» (cuja edição original se intitula «Le Cotê de Guermantes»), Marcel Proust escreve sobre as posições incompatíveis da própria família perante a acusação de traição do capitão Alfred Dreyfus, que inquietou e dividiu a sociedade francesa na Terceira República, sobretudo entre 1894 e 1906: «O facto é que meus pais haviam concedido e inspirado sempre à Sr.ᵃ Sazerat a mais profunda estima. Mas (o que minha mãe ignorava) a Sr.ᵃ Sazerat, única da sua espécie em Combray, era dreyfusista. Meu pai, amigo do Sr. Méline, estava convencido da culpabilidade de Dreyfus. Tinha mandado passear com mau humor as colegas que lhe haviam pedido que assinasse uma moção revisionista. Não me falou durante oito dias quando soube que eu havia seguido uma linha de conduta diferente.»

A suposta entrega de documentos secretos franceses à Alemanha Imperial, por parte do oficial francês de raízes judaicas, segundo algumas «evidências grafológicas» num «bordereau» rasgado, serviu para acicatar as polémicas nacionalistas e anti-semitas, a que não foi alheia a imprensa da época, igualmente dividida em torno do polémico erro judiciário. Émile Zola – enquanto autor da carta aberta (publicada em 13 de Janeiro de 1898, no jornal «L’Aurore») dirigida a Félix Faure, que herdou este problema no seu mandato presidencial, iniciado em Janeiro de 1895 – foi contundente na denúncia contra os oficiais do Estado-Maior que ocultaram a verdade, tendo o romancista sido processado e condenado por difamação, na sequência do artigo panfletário «J’Accuse…!».

Por sua vez, o autor de «Os Maias», romance em que a família hebraica Cohen se destaca na sociedade lisboeta do século XIX, diz ser assumidamente francês «em quase tudo», «excepto num certo fundo sincero de tristeza lírica que é uma característica portuguesa, num gosto depravado pelo fadinho, e no justo amor do bacalhau de cebolada», como recorda o meu camarada Fernando Madaíl (em 1 de Março de 2008, no «Diário de Notícias»), baseando-se numa carta que Eça de Queirós enviara a Oliveira Martins.

Como cônsul de Portugal, Eça terminou a carreira diplomática em Paris, onde escreveu o romance «A Ilustre Casa de Ramires» e a obra «A Correspondência de Fradique Mendes», além de ter sido um observador atento das convulsões colectivas. Assim, embora seduzido pela França, o «affaire» Dreyfus tê-lo-á feito desacreditar na justiça gaulesa desse período, distante da que Platão reconheceria como sinónimo de harmonia social.                                                                                                                                                                                                 

Vitalino José Santos («Diário de Coimbra»: DA RAIZ E DO ESPANTO, 28.03.2021)

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