Ter cuidado e cuidar

Dois conceitos irmanados na mesma raiz etimológica, mas com alcances ligeiramente diversos: cuidar e ter cuidado. Carregados de sentido simbólico e real, e determinantes na vivência do nosso quotidiano, ter cuidado e cuidar assumem, nos tempos actuais, uma acuidade e pertinência decisivas.

Ambos prefiguram a essencialidade da vida, já que necessitamos tanto de ter cuidado como de cuidar, para organizar, modelar e garantir a nossa própria existência. Precisamos igualmente e de forma inequívoca, mas também recíproca, de ter cuidado com a vida do outro e de cuidar do outro, quando a sua vulnerabilidade o exige.

O ter cuidado toma normalmente um carácter preventivo. Expressa-se, muitas vezes, através de um apelo ou de um alerta, pressupondo, com frequência, uma intuição premonitória. Ou seja, perspectiva antecipadamente algo que pode acontecer, ao alertar para a hipótese de risco ou de ocorrência de um problema, tentando prevenir essa mesma ocorrência e também as consequências que dela derivam.

O cuidar, por sua vez, exige uma tomada de posição pronta, rápida e eficaz. Isto é, uma intervenção pragmática, em face da existência de uma situação problemática concreta.

É na interdependência destas duas dimensões que orientamos a nossa vivência quotidiana, de maneira mais ou menos oscilante, tomando consciência da realidade que nos cerca, agindo e interagindo de acordo, ou não, com as regras que pautam as noções de ter cuidado e de cuidar.

Estas duas valências assumem-se, todavia, numa complexa teia de relações temáticas que constituem a atmosfera envolvente da vida de cada ser humano, da qual a mesma vida depende – reconhecendo que contribuem para o equilíbrio e, até, para a sua própria problematização.

A este respeito nos referimos quando falamos de uma economia sem ética, de uma desatenção permanente aos factores responsáveis pelas alterações climáticas, da pobreza, das desigualdades, da exclusão e, por exemplo, das políticas que não previnem deslocações em massa de refugiados, entre tantas outras situações e circunstâncias sociais.

Subjacente ao ter cuidado e ao cuidar encontra-se a raiz ética da essência humana, assente em valores e em princípios que devem orientar toda a actividade das pessoas, cumprindo-se também na obrigação moral de ter cuidado e de cuidar de si próprias, enquanto indivíduos. Porém, importa não só não ficarmos indiferentes, mas sobretudo que reforcemos a nossa vontade de aceitarmos, de modo consciente, solidário e pragmático, as determinações de ter cuidado e de cuidar do outro.

Trata-se de uma exigência decorrente da própria natureza humana e do seu carácter efémero, frágil, vulnerável, provisório e finito, traços que são intrínsecos a qualquer pessoa, sem excepção. E, precisamente, porque esta é uma característica e um destino comum a toda a humanidade, as resoluções de ter cuidado e de cuidar devem ser assumidas e praticadas por cada um de nós.

Só assim poderemos arrogar a genuína cidadania, com deveres e direitos, contribuindo para uma construção mais solidária, mais igualitária e mais fraternal, desbravando os caminhos da paz.

Rosa Morais Pereira

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Pedro Abrunhosa junta-se à Orquestra Jazz de Leiria para cantar «Toma Conta de Mim»:

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