Ao encontro do outro

Nestes tempos de pandemia, de novo confinamento geral e de pouco contacto social, o que conduz a uma acentuação do individualismo, do egoísmo e do “salve-se quem puder”, são cada vez mais as pessoas que precisam de afecto, de apoio, de solidariedade, de um estímulo, de conforto, de atenção, de uma palavra amiga ou de um abraço, ainda que virtual.
Por via do distanciamento físico que se impõe, suspendendo – mais que os afectuosos abraços – os gestos de relação, de caridade e de solidariedade, devemos “olhar à nossa volta” e “abrir o nosso coração” para irmos ao encontro dos que nos são mais próximos, dos que mais precisam, das “franjas da sociedade” ou das “periferias”, como exorta o Papa Francisco.  
Revisitando a parábola bíblica do bom samaritano, há hoje um número cada vez maior de “pobres caídos no caminho”; e não falamos só de pobreza económica. Assim, cada um de nós tem de decidir: passamos ao lado ou dispomo-nos a ser “bons samaritanos”, acompanhando e ajudando os mais frágeis, pondo em prática uma cultura de proximidade e do encontro? É um desafio exigente porque, muitas vezes, preferimos ficar na nossa zona de conforto, olhando à distância ou a partir da varanda, fechados no nosso egoísmo, à espera de que outros resolvam os problemas daqueles que mais precisam. Esta não é uma atitude humana nem responsável, nem cristã!
Ir ao encontro é mais do que estar atento. Significa, sobretudo nestes tempos de pandemia, cuidar dos mais isolados, dos mais frágeis nas nossas famílias, na nossa sociedade e no nosso povo.
Ir ao encontro do outro é tomar a iniciativa e traduzir essa manifestação em acções concretas, que estão ao nosso alcance e que passam pelo acolhimento, pelas relações de comunhão, de fraternidade, de solidariedade, de partilha, de diálogo, de reconciliação, de paz, de cuidado da criação, de serviço e apoio aos mais pobres, frágeis e marginalizados… Enfim, o amor ao próximo nesta linha de pensamento: “O que fizerdes ao mais pequenino dos meus irmãos é a mim que o fazeis.”
Este é um tempo que traz à superfície uma grande noção da fragilidade individual, que só se consegue superar com resiliência e com a ajuda do outro.  Mas que também nos apela ao que é realmente importante: a consciência colectiva, o sentido de comunidade, a solidariedade para com todos, incluindo os que nos são mais chegados, indo ao seu encontro, ainda que à distância, levando alegria, gratidão, esperança e, sempre, uma palavra de conforto.
De entre as inúmeras pessoas que precisam de uma “janela diária de encontro”, destacamos:

  • todas as famílias enlutadas, particularmente nesta época em que as despedidas possíveis provocam perda e dor mais intensa perante uma situação tão difícil e atípica;

  • todos os que estão a ser afectados na saúde pela pandemia da covid-19;

  • as famílias com mais dificuldades de índole económica, social ou sanitária;

  • os mais idosos, principalmente os que vivem sozinhos ou nos lares, sem quaisquer visitas (aproveitemos para pensar na forma como tratamos as pessoas mais idosas da nossa comunidade, muitas vezes, esquecidas entre as paredes da tristeza e do abandono!); e ainda

  • os que vivem connosco. Sim, quantas vezes não vamos ao encontro dos avós, dos pais, do marido ou da esposa, nem dos próprios filhos!?

Apesar desta pandemia que teima em não nos dar tréguas, temos de continuar presentes junto dos nossos, sobretudo os mais idosos e mais vulneráveis, para quem o tempo é deveras precioso. Ao procurarmos garantir a maior segurança possível, precisamos de apoiar, de dar ânimo e esperança, bem como alimentar o amor que nos une. Sem isso, tudo seria ainda mais difícil!
É tempo, pois, de colocar no centro das nossas vidas, com grande evidência, a noção do “bem comum”, indispensável para uma resposta eficaz, a favor de uma maior dignidade da pessoa humana, promovendo, vivendo e praticando a cultura da fraternidade, do cuidado e da solidariedade, como nos fala o Papa Francisco, na Carta Encíclica Fratelli tutti, sobre a fraternidade e a amizade social.
O desafio é o de procurarmos ser bons samaritanos. É o de olharmos mais à nossa volta, indo ao encontro dos que mais precisam, pondo em prática o melhor de cada um de nós no que se refere à solidariedade, à generosidade, ao sentido da comunidade e à capacidade de ajudar o próximo. Pelo menos nisto, devemos estar na linha da frente!

Luís Rocha (director do CEARTE e membro da Comissão Diocesana Justiça e Paz de Coimbra)

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A propósito, recordemos a canção «Ser Solidário», de José Mário Branco:

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