A não-violência activa: um estilo de vida

Numa das suas mensagens para o Dia Mundial da Paz (em 2017), o Papa Francisco convidava os líderes políticos e religiosos, os responsáveis das instituições internacionais, os dirigentes das empresas e dos «media» de todo o Mundo a «aplicar as bem-aventuranças no mundo em que exercem as suas responsabilidades». Aceitar este desafio e operar desta maneira «significa escolher a solidariedade como estilo para fazer a história e construir a amizade social. A não-violência activa é um modo para mostrar que de facto a unidade é mais poderosa e mais fecunda que o conflito». E, verdadeiramente, não existe âmbito da vida que não possa ser este terreno fecundo. Até mesmo uma orquestra! Aqui está o da West-Eastern Divan Orchestra – e daqueles que a idearam – que, há diversos anos, se tornou um verdadeiro laboratório de convivência e de paz.

Israelitas e palestinianos tocam em conjunto

Cada uma das artes é portadora de valores e de ensinamentos. A hierarquia que vigora em toda a música respeita a individualidade de cada voz, que pode não ter os mesmos direitos, mas tem certamente a mesma responsabilidade de todas as outras. Obviamente, é mais fácil alcançar este objectivo na música do que na vida: «Como é difícil no mundo criar igualdade no interior de uma hierarquia!», comenta Daniel Barenboim, um dos protagonistas deste artigo.

Daniel nasceu em Buenos Aires, no ano de 1942, de pais russos de origem hebraica, tem também a nacionalidade israelita, espanhola e palestiniana. Pianista muito precoce, apresentou-se pela primeira vez aos sete anos na sua cidade natal. Uniu à sua prestigiosa carreira internacional como pianista uma brilhante carreira de director de orquestra que, actualmente, representa a parte principal da sua actividade e que o levou a dirigir as maiores orquestras do Mundo.

O outro protagonista é Edward Said, que nasceu em 1936, na cidade de Jerusalém, herdeiro de uma rica família palestiniana cristã. Estuda, primeiro, no Cairo e, depois, o pai (empresário) manda-o para um colégio em Massachusetts, na América, com o objectivo de conseguir a cidadania americana para o filho. Em 1948, a família Said é expropriada de todos os seus bens e o jovem Edward torna-se um refugiado. Decide combater a favor dos direitos do povo palestiniano e por um estado binacional, secular e democrático. Torna-se professor de Inglês e de Literatura Comparada na Columbia University de New York. Tendo-se formado em Princeton e Harvard, Said ensinou em mais de cinquenta universidades e escolas nos Estados Unidos da América, no Canadá e na Europa. Said lutou sempre a favor da dignidade do seu povo, contra a ocupação israelita e contra aqueles que demonizam o Islão.

Ambos estão convencidos que a cultura favorece os contactos entre as pessoas e as torna mais próximas, promovendo a tolerância. «É por isso que Edward e eu – conta-nos Daniel Barenboim – demos vida ao projecto do West-Eastern Divan com o intento de reunir músicos provenientes de Israel, da Palestina e de outros países árabes, para fazer música juntos, e depois – quando nos demos conta do interesse que despertou esta ideia – passámos à fundação de uma orquestra. O nome do projeto West-Eastern Divan fomos buscá-lo a uma recolha de poesias de Goethe, que foi um dos primeiros europeus a interessar-se de maneira autêntica pelas outras culturas. Ele começou a estudar Árabe com a idade de sessenta anos, descobriu o grande poeta persa Hafiz. Tudo isto está na base da inspiração de uma série de poesias focalizadas na ideia do outro, que deram origem ao livro o Divã ocidental-oriental, que foi publicado há duzentos anos, em 1819. É interessante notar como, no mesmo período, Beethoven estivesse a escrever a Nona Sinfonia, o seu celebérrimo credo na fraternidade entre os seres humanos.»

Deixemos que seja ainda Berenboim a contar-nos: «As poesias de Goethe tornaram-se o símbolo da ideia que está na base da nossa experiência de reunir músicos árabes e israelitas. A experiência iniciou-se em 1999, na cidade de Weimar, o que tornou ainda mais apropriado dar à orquestra este nome tirado da recolha poética goethiana. A pequena cidade da Turíngia representa, para muitos, o melhor e o pior da história alemã: do século dezassete ao dezanove, Weimar foi a pátria cultural de Bach, Liszt, Goethe e Schiller. No entanto, depois da Segunda Guerra Mundial, o campo de concentração de Buchenwald, que surge a pouca distância, lançou a sua sombra também sobre os intentos mais altos e nobres da humanidade, constituindo uma memória constante do extremo oposto: a capacidade de abandonar-se à crueldade, à ferocidade e à devastação. Esta história complexa, que desde então se entrelaçou com a história do Estado de Israel, fixou o cenário da primeira sessão da orquestra, de que fazem parte jovens provenientes da Palestina e dos territórios ocupados, palestinianos provenientes de Israel, sírios, libaneses, jordanos, egípcios e naturalmente israelitas.»

Exprimir-se e escutar

O que se requer para tocar numa orquestra pode ser muito importante para o modo como nos comportamos na vida. É ainda o maestro Barenboim a explicar-nos. «Cada vez que se toca… devem-se fazer ao mesmo tempo duas coisas muito importantes. Uma é exprimir-se – de contrário não se está a contribuir para a experiência musical – a outra é escutar os outros músicos, o que é indispensável para fazer música (…). De qualquer maneira, é impossível tocar de maneira inteligente numa orquestra se nos concentramos apenas sobre uma destas duas coisas. Não basta executar muito bem a própria arte. Se não se escuta, o próprio som pode tornar-se tão forte a ponto de cobrir as outras partes, ou tão submerso que deixa de ser audível. A arte de executar a música é arte de tocar e de escutar simultaneamente, uma coisa intensifica a outra. (…) Uma das razões que nos levou a fundar a orquestra foi esta qualidade dialógica intrínseca à música. Edward Said nos seus colóquios com os jovens músicos esclareceu como a separação entre as pessoas não representa a solução de nenhum dos problemas que nos dividem, e que a falta de conhecimento dos outros não ajuda.»

Continua ainda Barenboim: «O princípio fundamental da orquestra era bastante simples e desde o momento em que os jovens músicos aceitaram tocar mesmo uma única nota juntos, deixaram de se poder olhar com os mesmos olhos de antes. Se na música eram capazes de sustentar um diálogo tocando juntos, então queria dizer que também o diálogo verbal normal, aquele em que se espera o que o outro tem para dizer, seria muito mais fácil. Este foi o nosso ponto de partida e, desde o início, Edward e eu fomos bastante optimistas, apesar do que ele definiu “um céu cada vez mais carregado”, com uma capacidade de previsão que se revelou tristemente demasiado exacta (…). Desde o início, estávamos convencidos que os destinos dos dois povos – o povo palestiniano e o povo israelita – estivessem ligados de modo inextricável e que, portanto, o bem-estar, a dignidade e a felicidade de um devessem inevitavelmente ser os do outro. Infelizmente, não é esta, hoje, a visão das coisas no Médio Oriente.»

Afirma ainda Barenboim: «Existe uma miríade de condições que criam igualdade no interior da orquestra e que podem, com a disciplina pessoal, ser transferidas para a vida civil. Quando são aplicadas a nível pessoal, estas condições ajudam a mudar, se não a realidade política, pelo menos a perspectiva individual, que é a maneira mais modesta e, ao mesmo tempo talvez, a mais eficaz, de mudar o modo geral de afrontar o conflito (…). Quando os palestinianos se encontram com os israelitas para fazer música, a igualdade, o elemento mais ausente da política do território, é já um dado de facto. Tal igualdade pode ser que constitua apenas um ponto de partida para reflectir sobre os requisitos indispensáveis para a coexistência, o primeiro dos quais é a capacidade de compreender a história do outro, as suas preocupações e aquilo de que precisa para viver e desenvolver-se. A música – neste caso, a orquestra – não representa uma solução alternativa, mas sim um modelo. A diversidade no interior do grupo favorece a coexistência pacífica de identidades nacionais diversas, além de libertar dos preconceitos recíprocos.

Embora a vida da orquestra não seja muito longa – como se disse, nasceu em 1999 –, tornou-se já uma orquestra de excelência, no panorama internacional. Porém, o que é ainda mais importante, tornou-se um verdadeiro laboratório de coexistência pacífica, que não poderá deixar de dar os seus frutos no futuro. Um dos projectos mais arriscado e mais aventureiro foi o de ir à Palestina em 2005, com toda a orquestra. Barenboim define-o «um dos momentos mais difíceis» da sua vida; «tornou-o tolerável, a posteriori, apenas o alcance histórico do acontecimento a que tínhamos dado vida em Ramallah (…). Era quase incrível que todos os membros da Divan estivessem verdadeiramente ali, em Ramallah, em veste de concerto, prontos para as provas e para tocar como se fosse num lugar qualquer do mundo». Infelizmente, neste evento de alcance histórico já não estava Edward Said, que morrera em 25 de Setembro de 2003; mas estava Mariam Said, a sua viúva, a testemunhar aquele momento inesquecível.

«A República independente e soberana da West-Eastern Divan», como gosta de chamá-la Barenboim, é sem dúvida um projecto admirado por muitos. Todavia, para muito outros, é também considerado um pouco ingénuo. Mas ele rebate: «Pergunto-me se não é ainda mais ingénuo contar com uma solução militar que, há sessenta anos, não chega. O passado não é outra coisa que a passagem ao presente e o presente a passagem ao futuro. Daí que um presente violento conduza, de maneira inevitável, a um futuro ainda mais violento (…). Gosto de considerar estes jovens (os membros da West-Easter Divan Orchestra) como os pioneiros de um novo modo de pensar o Médio Oriente».

(A fonte para este artigo foi o livro de D. Barenboim, La musica sveglia il tempo, cap. L’orchestra, pp. 61-86, Universale Economica Feltrinelli, 2013.)

Maria Lúcia Amado Correia   (luciacmporto@yahoo.com)

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