Dar voz ao humanismo num espaço de liberdade

Na tarde desta sexta-feira, refugiei-me na música. A situação epidemiológica relativamente à covid-19 é pouco animadora e são expectáveis novos recordes de registos de casos que nos preocupam. Os efeitos colaterais da pandemia também passam pelo problema do desemprego, sobretudo quando alguns analistas prevêem que só em 2024 haverá uma retoma económica portuguesa, para valores aproximados dos do período pré-pandémico.

Assim, enquanto trabalhava ao computador, reapreciei com gosto o espectáculo dos Pink Floyd, em Outubro de 1994, no Earls Court Exhibition Centre, a oeste de Londres. O consequente «PULSE» (estilizado como «p.u.l.s.e.» e lançado em 1995) é um álbum duplo desta banda de «rock» inglesa que foi gravado, ao vivo, durante a parte europeia da promoção do disco «The Division Bell», uma digressão programada pelo grupo há já 26 anos, mas que ainda conserva esse clima de regresso triunfal. Simplesmente, extraordinário!

 

Embora se observe – como afirma D. José Ornelas Carvalho, recém-presidente da Conferência Episcopal Portuguesa – que «das pandemias podem nascer sempre mundos novos», devemos acautelar alguma esperança no que se vai decidir para o nosso futuro social. Diz ainda o bispo de Setúbal, entrevistado no programa televisivo «70×7» (em 21 de Junho), que «os pobres têm de ser o fulcro da atenção, porque, a partir daí, se pode construir um mundo melhor».

A par do espírito de missão, que significa «amassar o Evangelho na realidade que temos», D. José Ornelas verifica que «tudo começa na palavra» e que «é importante saber a identidade que se tem».

Ao homenagear o professor de História, Samuel Paty, decapitado num ataque terrorista, «por ter encarnado a República», o presidente francês reforçou a figura do docente como símbolo identitário e como transmissor dos valores nascidos na Terceira República (que, segundo o estadista Adolphe Thiers, na década de 1870, era a «forma de governo que menos dividia o país»).

Por isso, Emmanuel Macron garantia, nesta quarta-feira em Paris, na Sorbonne, um assumido «lugar do humanismo» e do «saber universal»: «Defenderemos o laicismo. E a liberdade que ensinavas tão bem. Não renunciaremos a caricaturas ou ilustrações.»

A separação da Igreja e do Estado é essencial na República Francesa. Daí a sua neutralidade em matéria religiosa e a respectiva obrigação de assegurar a liberdade dos crentes e também a dos não-crentes, promovendo a tolerância de uns em relação aos outros. Como chefe de Estado, Macron escolhe a via do equilíbrio entre Marine Le Pen e as correntes mais radicais da esquerda. E admite que a maioria dos muçulmanos franceses, que aceitam as regras da cidadania, precisam de ser protegidos, reprimindo os terroristas e os movimentos islâmicos que querem usurpar o futuro.

Igualmente em Portugal, como lembra o geólogo e catedrático jubilado Galopim de Carvalho, «é necessário e urgente repor, como inerência de cargo, a dignificação e o respeito pelo professor». «É necessário e urgente que a Escola recupere todas as competências fundamentais à disciplina, aqui entendida como a obrigatoriedade de respeitar as normas estabelecidas democraticamente, o que evita o autoritarismo, conferindo a autoridade a quem a deve ter», escreve o reconhecido paleontólogo dos dinossáurios, no seu livro «Com coentros e conversas à mistura».

Vitalino José Santos

(«Diário de Coimbra»: DA RAIZ E DO ESPANTO, 25.10.2020)

Deixe um comentário