A Oração pela Paz atribuída a São Francisco de Assis

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Muito divulgada e repetida, musicada por vários compositores sobre texto em várias línguas e inserida na versão portuguesa da Liturgia da Horas, como um dos hinos da Hora Intermédia de sábado no Tempo Comum, é a chamada Oração de São Francisco de Assis.

Configura um conjunto de petições dirigidas ao Senhor no sentido de fazer do orante um edificador, paladino e instrumento pessoal da paz que Jesus nos deixou como dádiva e como tarefa de cada dia. Por outro lado, trata-se de um pequeno que enumera ideias fundamentais que servem muito bem o contributo pessoal para o bem da paz. É um belo e multíplice propósito de vida arvorado em estilo de paz, um padrão de educação para a paz.

Eis o texto numa das versões vernáculas autorizadas:

Senhor! Fazei de mim um instrumento da vossa paz.

Onde há ódio, que eu leve o amor.

Onde há ofensa, que eu leve o perdão.

Onde há discórdia, que eu leve a união.

Onde há dúvida, que eu leve a fé.

Onde há erro, que eu leve a verdade. 

Onde há desespero, que eu leve a esperança.

Onde há tristeza, que eu leve a alegria.

Onde há trevas, que eu leve a luz.

Ó Mestre, fazei que eu procure mais:

Consolar, que ser consolado;

Compreender, que ser compreendido;

Amar, que ser amado.

Pois é dando que se recebe.

É perdoando que se é perdoado.

E é morrendo que se vive para a vida eterna.

LINK para ouvir a oração cantada por Elizabete Lacerda: http://youtu.be/-4uGtLjfKNI

Para uma análise do texto

Depois, desfilam quatro versos a partir dum termo, “Mestre”, que representa uma variante significativa dos atributos do Senhor, aqui num vocativo precedido da interjeição “oh”, de espanto e disponibilidade, porque o orante, como apóstolo, tem de inverter radicalmente as suas preocupações: em vez de procurar, antes, a satisfação das suas aspirações (que não deve descartar de todo) – ser consolado, compreendido e amado –, tem de almejar sobretudo a satisfação das aspirações dos outros, pelo que tem de se obrigar, antes de mais, a consolar, compreender e amar. A construção dos versos dependentes do verso “Oh Mestre, fazei que eu procure maisé também antitética, mas não através de antónimos, mas da contraposição de segmentos verbais na voz ativa e na voz passiva, sendo mais relevante praticar as ações de consolar, compreender e amar que ser objeto delas.

Como facilmente se pode ver, os propósitos atitudinais de paz são enunciados em torno da petição inicial de feição globalizante, tendo à cabeça o vocativo “Senhor” (Senhor! Fazei de mim um instrumento da vossa paz). Segue-se um rol de oito petições em desfile paralelístico, anafórico e em versos estruturalmente antitéticos: cada verso é iniciado pelo advérbio relativo “onde” a marcar os lugares em que há situações que postulam a nossa intervenção pessoal.

Começando pela situação pior, que é a de ódio, visitamos as situações de ofensa, discórdia (muito má do ângulo grupal e comunitário), dúvida (má quando conveniente), erro (mau quando crasso), desespero (péssimo do ponto de vista pessoal), tristeza (dramática quando mórbida) e trevas (origem e fim do mal e da ignorância). A estas situações, mordentes e mórbidas, o orante quer acorrer antiteticamente com os respetivos antídotos: o amor, o perdão, a fé, a verdade, a esperança, a alegria e a luz – expressos em termos antónimos que nalgumas versões vêm grafados com maiúscula. Note-se a forma verbal “leve” (de verbo de movimento), num conjuntivo optativo sintaticamente separado do verso inicial, mas semanticamente com ele conexo, uma vez que o crente sabe que não consegue a realização de nenhum dos seus propósitos sem o auxílio do Senhor, que está a invocar. Porém, o desejo orante é ir àqueles lugares “aonde” é urgente levar ação benfazeja da fé, da esperança e da caridade, tornadas Luz e cujos frutos serão o perdão, a união e a alegria.

Anote-se que o dinamismo do apostolado da paz leva o orante a transformar aquele “onde” da situação de mal num urgente “aonde” a exigir a ação de cada pessoa munida do espírito, alma e corpo do Evangelho, conteúdo e método, bem como a ação concertada da parte do coletivo.

Na presente versão, vê-se desenhado um anaforismo semântico, sendo que em algumas versões o anaforismo é mesmo vocabular. Basta o verso de início vir formulado em “Oh Mestre, fazei que eu procure menos” para os versos seguintes serem: “ser consolado do que consolar; / ser compreendido do que compreender; / ser amado do que amar”.

O verso ora destacado constitui um reforço do verso inicial, que serve de mote ou cabeça à glosa de 16 versos (distribuíveis por quatro quadras) a fazer a quadratura perfeita, a que talvez se deva a facilidade com que a oração é repetidamente rezada e cantada. Se quiséssemos reportar-nos à nossa poesia palaciana, poderíamos ver no texto um vilancete com mote, glosa (voltas) e cabo.

Este verso, que inicia uma quadra antitética como se disse, tem como chave, tal como o primeiro, a forma verbal “fazei” no imperativo, sinal de que o orante por si não é capaz de se posicionar nas atitudes e comportamentos que os valores enunciados postulam. Assim, o crente reconhece a sua insuficiência e socorre-se da humildade para implorar, confiando na divina omnipotência, a capacitação para construir o perfil desejado e o feliz e apostólico desempenho.

Finalmente, vem a quadra final, que serve de conclusão do enunciado, que resulta de acumulação, e de fundamentação para a formulação daquele conjunto de petições.

 

A génese desta oração

Comummente atribui-se a oração pela paz a São Francisco de Assis. Porém, ainda que ela tenha a ver com a preocupação franciscana de paz universal e bem para todos e seja expoente da fraternidade e da postura da aprendizagem com o Mestre, o texto não é na pena de Francisco. Dificilmente o irmão Francisco conceberia uma longa oração dirigida ao Senhor totalmente impetratória e tão visivelmente pressurosa e preocupante. O poverello era bem mais tranquilo e otimista, irmão a sério. Por outro lado, Christian Renoux, historiador francês, pesquisou as origens do texto e descobriu que o primeiro registo é de 1912. Foi publicado na revista francesa “La Clochette”, sem assinatura e com o título “Oração Bonita para Fazer durante a Missa”. e passou a ser chamada também de “Oração pela Paz”. Segundo o historiador, a oração foi associada ao padroeiro dos animais porque foi impressa algumas vezes com à imagem dele.

A predita revista era uma “petite revue catholique pieuse” fundada pelo sacerdote e jornalista Esiher Suquerel, falecido em 1923. E a hipótese é que ele mesmo tenha sido o autor da prece.

Em 1913, a oração foi retomada por Louis Boissey (falecido em 1932), apaixonado pelo tema da paz; em janeiro, foi publicada nos “Annales de Notre Dame de Paix” (França), citando como origem “La Cloclette”. No mesmo ano, Estanislau de la Rochethoulon Grente (falecido em 1941), fundador de “Le Souvernir Normand“, publicou-a na sua revista.

Mas a mensagem de paz e de esperança ganhou força durante a I Guerra Mundial e, em  20 de Janeiro de 1916, a oração foi publicada no “L’Osservatore Romano”, jornal da Santa Sé. Segundo este jornal, “Le Souvenir Normand” havia enviado ao Santo Padre “o texto de algumas orações pela paz”. Entre elas, destacava-se esta dirigida especialmente ao Sagrado Coração.

Em 3 de Fevereiro do mesmo ano, “La Croix” de Paris dava a conhecer que, em 25 de Janeiro, o cardeal Gasparri escrevera ao marquês de La Rochethulon et Gante a agradecer-lhe o envio feito a Sua Santidade. Três dias depois, o mesmo jornal reproduziu o texto do “L’Osservatore Romano”. Também, naqueles dias, o capuchinho Etienne de Paris, diretor da Ordem Terceira, mandou imprimir em Reims uma imagem de São Francisco, com a invocação ao sagrado Coração no verso. No rodapé, sublinhava que a oração, retirada de “Le Souvenir Normand”, era uma síntese perfeita do ideal franciscano que precisava de ser promovido na sociedade de então.

Em 1917, foi divulgada com um título chamativo: “Oração para uso dos que querem colaborar na preparação de um mundo melhor”.

Os primeiros a relacionar a oração com São Francisco foi a organização protestante “Chevaliers de la Paix”, ou Cavaleiros da Paz, às vésperas do 7.º centenário da morte do santo (1926).

A partir de 1925, a oração começara a ser difundida pelo mundo afora, a partir dos Estados Unidos e do Canadá, seguindo-se os países germânicos. Os mídia católicos franceses começaram a atribuí-la a São Francisco em 1947.

Na 2.ª metade do século XX, a “Oração Simples”, como a chamavam em Assis, começou a tornar-se popular, sobretudo quando os frades do Sacro Convento a imprimiram em diversas línguas, sob o seu nome, nas imagens de São Francisco.

Esta prece tornou-se a oração quase oficial dos escuteiros e das famílias franciscanas; os anglicanos consideram-na como a oração ecuménica por excelência; algumas igrejas e congregações protestantes adotaram-na inclusive como texto litúrgico; foi pronunciada numa das sessões da ONU; e, ultimamente, tem grande acolhimento entre as religiões não cristãs, sobretudo desde que Assis se tornou o centro mundial do ecumenismo e do diálogo inter-religioso. O segredo deste sucesso deve-se à atribuição a São Francisco e à riqueza do conteúdo, unida à simplicidade; e é precisamente o conteúdo e o título original, “Invocação ao Sagrado Coração”, que permitem atribuir a composição a um autor não anterior ao início do século XX.

Fonte de inspiração pode ter sido a fórmula de Consagração ao Sagrado Coração, promulgada por Leão XIII em 1899 e recomendada por São Pio X em 1905 para ser recitada anualmente:

Sede o Rei de todos os que vivem no engano do erro ou que, por discordarem, de Vós se separaram; chamai-os ao porto da verdade e da unidade da Fé, para que, assim, em breve, não haja mais que um só rebanho sob um só Pastor. Sede o Rei de todos os que estão envoltos nas superstições do paganismo e não recuseis tirá-los das trevas para trazê-los à luz do Reino de Deus. Obtende, ó Senhor, a integridade e liberdade segura para a vossa Igreja; dai a todo o povo a tranquilidade da ordem.

E o Padre Etienne (de Paris) via nela certa concordância com o espírito e o estilo franciscanos, como se comprova lendo, por exemplo, a Admoestação 27 de São Francisco:

Onde há caridade e sabedoria, não há medo nem ignorância.

Onde há paciência e humildade, não há ira nem perturbação.

Onde à pobreza se une a alegria, não há cobiça nem avareza.

Onde há paz e meditação, não há nervosismo nem dissipação.

Onde o temor de Deus está a guardar a casa (cf Lc 11,21),

O inimigo não encontra porta para entrar.

Isto é o que faz que a oração seja considerada por muitos como franciscana e, embora seja erro atribuí-la a São Francisco de Assis, ela deve ser rezada e cantada.

Considerações de um franciscano

Frei Adelino G. Pilonetto, OFM Cap, considera que a Oração pela Paz, Oração do Amor, Oração simples, tem um sabor ecuménico e expressa conteúdos de tanta sinceridade e beleza que necessariamente encontra ressonância no coração das pessoas, pois o conteúdo corresponde às aspirações íntimas dos melhores cristãos do nosso tempo. E, não se tratando duma oração antiga, embora sejam antigas as suas raízes, foi graças à sua simplicidade, pertinência e beleza que muitos se afeiçoaram a ela e, inadvertidamente, os franciscanos a adotaram como própria.

Como se disse, quem a enviou ao Papa Bento XV, juntamente com outras orações pela paz, foi o Marquês de la Rochetulon, fundador do semanário católico Souvenir Normand. Nessa época, faziam-se, em toda parte, orações instantes pela paz, visto que a Europa inteira se debatia com os fantasmas trágicos da I Guerra Mundial (1914-1918).

Soube-se que aquelas orações, inclusive a que seria atribuída a São Francisco, eram dirigidas ao Sagrado Coração de Jesus, devoção que se vinha a expandir com muito fervor desde o final do século XIX e com a qual “se pretendia resgatar uma dimensão esquecida no cristianismo tradicional: a riqueza da santa humanidade de Jesus, do seu amor incondicional, da sua misericórdia, do seu enternecimento para com todos, especialmente para com os pobres e os pecadores, as crianças e as mulheres”. A partir deste contexto, a Oração pela Paz ganhou asas e correu mundo, recebendo acolhimento entusiasta de cristãos e mesmo de seguidores de outras religiões, que nela encontravam a expressão inspirada dos ancestrais desejos de união e de paz.

A atribuição a Francisco de Assisnão é propriamente uma falsificação fraudulenta, mas uma casualidade histórica, que, entretanto, contribuiu para tornar manifesta uma notável afinidade existente entre a Oração pela Paz e a espiritualidade franciscana.

Um primeiro passo deu-se por volta de 1913, quando a oração foi estampada no verso de um póster devocional que trazia a figura de São Francisco de Assis. O texto tinha simplesmente como título: “Oração pela Paz”. Tempos depois, por volta de 1936, foi publicado um póster semelhante em Londres com a mesma oração, traduzida em inglês, no verso. Desta vez, porém, ela foi atribuída diretamente ao santo representado na gravura, e recebeu como título: “Uma Oração de São Francisco”. Com isto firmou-se ainda mais a sua popularidade. Outro passo foi quando o senador americano Tom Connally a leu na Conferência da ONU, em 1945. Porém, em todas as outras edições anteriores, o texto é anónimo, até em revistas franciscanas, inclusive no ano do VII Centenário de São Francisco.

Leonardo Boff conta episódio semelhante, ocorrido pouco depois da publicação da Oração pela Paz em Roma. Um franciscano que visitava a Ordem Terceira Secular de Reims, na França, mandou imprimir um cartão tendo dum lado a figura de São Francisco com a regra da Ordem Franciscana Secular na mão e, do outro, a Oração pela Paz com a indicação da fonte: Souvenir Normand. No final, uma pequena frase rezava:

Essa oração resume os ideais franciscanos e, ao mesmo tempo, representa uma resposta às urgências de nosso tempo.

Além do alto teor evangélico da oração, os estudiosos identificam nela ressonâncias de temas clássicos da espiritualidade medieval, especialmente agostiniana, sobretudo nas obras de misericórdia espiritual e no mecanismo esquemático do combate aos vícios pelas virtudes. As expressões repetitivas lembram João Fécamp, autor muito próximo da literatura franciscana dos primórdios. A 2.ª parte da Oração apresenta semelhanças de estilo com os ditos de Frei Egídio, companheiro de São Francisco, e com a Admoestação 27 do próprio Santo, como se viu acima.

Esta frase levou a que deixasse de ser apenas Oração pela Paz para ser também Oração de São Francisco ou Oração da Paz de São Francisco de Assis. Assim, passou a ser, simultaneamente, resumo da devoção ao Sagrado Coração de Jesus e da espiritualidade franciscana. Com efeito, há parentesco entre a Oração pela Paz e a espiritualidade franciscana, permitindo que uma se reconheça na outra. Talvez L. Boff exagere na fundamentação de tal parentesco:

Existe uma espiritualidade franciscana difusa no espírito do nosso tempo, nascida da experiência de Francisco, de Clara e de seus companheiros [ … ]. A Oração pela Paz, também chamada Oração de São Francisco, constitui uma das cristalizações desta espiritualidade difusa. Ela não provém diretamente da pena do Francisco histórico, mas da espiritualidade do São Francisco da fé. Ele é seu pai espiritual e por isso seu autor no sentido mais profundo e abrangente da palavra. Sem ele, com certeza, essa Oração pela Paz jamais teria sido formulada nem divulgada e muito menos se teria imposto como uma das orações mais ecuménicas hoje existentes. Ela é rezada pelos fiéis de todos os credos e por professantes de todos os caminhos espirituais.

O conteúdo desta oração

A semelhança com os ditos do Beato Egídio é maior, mas é de anotar o paralelismo da formulação anafórica e antitética bem-aventurantista:

Bem-aventurado aquele que ama sem desejar ser amado.

Bem-aventurado aquele que venera sem querer ser venerado.

Bem-aventurado aquele que serve sem querer ser servido.

Bem-aventurado aquele que trata bem os outros sem desejar ser bem tratado.

A concluir, são de ressaltar duas coisas: a “Oração pela Paz” não é de Francisco de Assis, não convindo, assim, continuar a designá-la como “Oração de São Francisco”, pelo facto de ela não o ser; e a oração está impregnada de espírito franciscano, tendo a ver com a espiritualidade e o carisma dos irmãos e irmãs menores. Convém, pois, tê-la em alto apreço, rezando-a e divulgando-a, pois é uma bela oração simples e inspirada, de sabor ecuménico, que nasce do coração e fala ao coração, em perfeita consonância com o Evangelho – a regra dos crentes e da Igreja. Ademais, é próprio do franciscanismo alegrar-se reconhecendo e admirando o bem onde quer que ele se encontre: nos irmãos, nos escritos dum pagão ou nos costumes dos sarracenos.

 

Bibliografia sobre o tema

Ler, se oportuno, mais textos do autor emhttp://ideiaspoligraficas.blogspot.pt/;

E ainda em: http://ideiasperegrinas.webnode.pt/blogue/.

– Willibrord Christiann van Dijk, “Une prière en quête d’auteur”, en Evangile Aujourd’hui, 1975, n. 86, 65-70; Jerôme Poulenc, L’inspiration moderne de la prière “Seigneur faites de moi un instrument de votre paix”, en Archivium Franciscanum Historicum, 68 (1975), 450-453; Christian Renoux, La priére pour la paix attribuée a Sant François: une énigme a résoudre. Les Editions Franciscaines, 9 rue Marie Rose, 75014-Paris, 2001; La preghiera per la pace attribuita a san Francesco. Padova, Edizioni Messaggero, 2003, 179 pgs.; Frei Adelino G. Pilonetto http://franciscanos.org.br/?p=24385.

Abílio  Louro de Carvalho

(19.06.2020)

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