Que paz desejamos?

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Porque se fala de Paz? Porque se deseja a Paz? Porque a vida humana é, toda ela, a todos os níveis em que a observemos, vivida em conflito. A imagem que, geralmente, fazemos da Paz advém-nos dos grandes conflitos em que os humanos se enredam. Somos muito sensíveis aos incompreensíveis conflitos armados, onde se destroçam incontáveis vidas inocentes e onde se destroem, irresponsável e instantaneamente, os frutos de séculos do trabalho, da arte e da sabedoria de múltiplas e esforçadas gerações. Somos, e devemos ser, muito sensíveis aos conflitos que advêm das desigualdades sociais, provocadas pela exploração de uns, sob a ambição de outros. Somos, com razão, muito sensíveis à tirania dos ditadores, à crueldade dos sanguinários torturadores, aos aniquiladores da opinião e da informação livre.

Sofremos com a visão de milhões de seres humanos vivendo miseravelmente nos subúrbios das cidades, sem trabalho, sem habitação condigna e, tantas vezes, sem alimentação e sem assistência sanitária suficiente. Escandalosamente expostos à indiferença ou à pouca generosidade dos outros cidadãos, como sequência ou como génese de conflitos sociais intermináveis. Escândalo insuportável é também o dos milhares de refugiados das guerras do Médio Oriente e de África, que se acumulam em campos improvisados, a que nenhuma Paz traz um mínimo de dignidade.

Parece-nos incompreensível que os autores dos mais terríveis e abomináveis conflitos da História tenham sido os povos e as nações considerados, civilizacionalmente, os mais avançados. Quando a ciência e a tecnologia são postas ao serviço do conflito, para o criar intencionalmente ou para o superar, comprova-se que não é pela inteligência, nem pela ciência, nem pela tecnologia e nem pela sua engenhosa habilidade que a espécie humana se valoriza e se dignifica. As vicissitudes da História humana mostram-nos que o desenvolvimento das ciências e das técnicas, com demasiada frequência, têm servido para destruir o que de melhor as mesmas ciências, técnicas e engenho são capazes de produzir.

Muitos dos grandes desenvolvimentos científicos e tecnológicos têm sido obtidos, precisamente, para alimentar conflitos. A mesma História mostra-nos que depois dos grandes conflitos, ante os destroços, se procuram estabelecer acordos de Paz e se fazem tratados de Paz que se proclamam e juram perpétuos, mas que prenunciam futuros novos conflitos, porque nesses tratados permanece sempre o elemento fundamental criador de conflito, o desejo de superioridade e de domínio de uns sobre outros, e a tácita esperança da vindicta.

Assim tem sido entre povos e nações considerados de mais avançada civilização. Um princípio de competição e de concorrência desenfreada torna-se princípio de destruição, não só da espécie como da Casa Comum que é o nosso planeta, num desafio à Natureza, à Criação. O que é ainda menos compreensível, nesta História, é que esses povos e nações tenham sido e sejam, sobretudo, povos e nações cristianizados, quando o projecto cristão pretende outro tipo de relação entre os humanos e para com a Natureza e o seu Criador. Temos de reconhecer que a tentação do conflito
perverteu até mesmo os povos cristianizados.

A tentação do conflito é de tal frequência que facilmente se julga “natural”,
como algo que está, inevitavelmente, ligado à própria natureza da espécie humana. Não se diferenciaria da natureza de qualquer outro animal, por inevitável sujeição ao princípio da sobrevivência e da superioridade, a qualquer preço. Ora, a ambição de Paz demonstra-nos que não é assim. O ser humano, mesmo quando faz guerra, quando cria conflito, não fica de bem consigo, porque é da particular e singular natureza humana conduzir-se de outro modo; superando a sua natural e desejável diferença, não pelo conflito, mas pela cooperação, como felizmente muitos procuram. Por essa razão, o sentido que geralmente atribuímos à palavra Paz tem algo de negativo, não elimina o que é o fundamento do conflito. O conceito de “concórdia” (ou seja, coração com coração) vai mais longe, porque exprime e exige dos humanos a sintonia das relações, aceitando e respeitando as diferenças e assumindo-as não como oportunidade de domínio, mas como oportunidade de mútua realização.

A Paz tem de começar no interior de cada um de nós, trabalhando(-nos) para a concórdia. Em cada um de nós, tem de traduzir-se na concórdia familiar; e também na concórdia das comunidades em que nos inserimos: na comunidade de vizinhança, na comunidade profissional, na comunidade de cidadania e na, também nossa, comunidade humana global. O grande problema reside na perversão que, com frequência, está em nós e que resiste à aprendizagem da doação mútua ou à aprendizagem da concórdia, que é a verdadeira expressão da Paz que desejamos.

José Veiga Torres

(1.º de Maio de 2020)

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