Não-violência

Se é certo que, como espécie, evoluímos de molde a desenvolver um cérebro complexo capaz de fazer a guerra, de torturar e de escravizar, mas, ao mesmo tempo, de perdoar, de dar e de cuidar. É, também, cada vez mais certo, que cabe às sociedades e a cada um de nós a opção do lado que queremos cultivar. 

Na linguagem comum, a não-violência, é o acto de abster-se da violência ou da força física. Para Gandhi (1951) e Luther King (1963), envolve muito mais do que um “acto de abstenção” ou falta de acção e abrange um componente positivo e proactivo de acção que é direccionado para reduzir a injustiça social e para construir culturas de paz. Esta visão da não-violência como um processo activo é consistente com o Manifesto da UNESCO (2000; Mayton, 2001) para uma cultura de paz e de não-violência.

Há relatos de acções não violentas desde a Roma antiga (século V a.C.) até à actualidade (como as ditaduras das Filipinas). Estas acções podem ir dos protestos não violentos, que são simbólicos e que geram consciencialização (por exemplo, as peregrinações, os piquetes e as vigílias), à cooperação não violenta, dificultando a manutenção do sistema de poder (ou seja, com greves, boicotes e outras formas de desobediência civil), até às intervenções não violentas, que incluem uma combinação das duas primeiras categorias, com desafios mais directos ao oponente (isto é, jejum, obstrução não violenta).

Mas o que torna efectivas as acções políticas não-violentas? 

Para exercer o poder, as pessoas que os líderes políticos estão a tentar influenciar devem ser obedientes. Quando acções políticas não-violentas são tomadas, a obediência à autoridade é interrompida e o consentimento para a liderança é retirado. Deste modo, a acção política não-violenta visa a mudança através de ajudar os opressores a tomarem consciência das suas opções injustas.

Gandhi defendeu a não-violência como parte integrante da sua filosofia de vida e como uma estratégia política. A sua filosofia de não-violência baseou-se em três princípios básicos:

– Satyagraha ou “força da alma” refere-se ao processo de compreender um conflito em conjunto com as opiniões de todas as pessoas nele envolvidas.

– Ahimsa ou “não fazer mal” inclui a crença na sacralidade da vida e a recusa em prejudicar os seres vivos.

– Tapasya ou “auto-sofrimento” consiste na crença de que, se não retaliarmos um acto violento com outro acto violento, o ciclo de violência quebra-se mais rapidamente. Exige enorme quantidade de coragem e de autocontrolo.

 

A Paz é o caminho!

Como implementar a não-violência activa se o adolescente típico já assistiu a mais de 10 mil assassinatos na televisão antes de terminar o ensino secundário? Os scripts de violência estão presentes, desde muito cedo, mesmo entre jovens que não vivem em comunidades violentas. Neste sentido, é necessário documentar e tornar público a eficácia das acções não-violentas para alcançar mudanças políticas ou outras.

Se os adolescentes fossem expostos a mais modelos familiares ou outros usando estratégias activas não-violentos de resolução de conflitos, as respostas activas não-violentas seriam, provavelmente, mais empregues. O desenvolvimento e a implementação de um currículo eficaz que desenvolva aptidões para a resolução de conflitos de forma não-violenta também ajudaria a quebrar os ciclos de violência.

Neste enquadramento é que surgem as Práticas de paz como uma categoria geral de disciplinas focadas, por um lado, na redução e na prevenção dos efeitos da violência e do trauma; e, por outro, na promoção da interacção social pacífica, na resiliência, na cura e na coexistência pacífica entre indivíduos e grupos. Entre estas disciplinas, encontramos a Educação para a Paz e a Psicologia da Paz.

A Psicologia da Paz surge, nas últimas décadas, com o objectivo de entender as condições sob as quais a não-violência pode produzir uma ordem social mais justa e igualitária e, consequentemente, rambém pode reduzir as formas directas e estruturais de violência. Embora os estudos científicos escasseiem, a literatura disponível aponta características comuns aos líderes que ao longo da história promoveram a não-violência e que a usaram como uma estratégia de acção (a exemplo de Mahatma Gandhi, de Luther King e de Nelson Mandela, entre outros). Características comuns como a história de vida (por exemplo, influências familiares, modelos de comportamento não-violento na infância e adolescência), os valores e princípios que advogaram (valores de auto-transcendência e de tolerância) e algumas qualidades ou características pessoais (como o autocontrolo emocional e a empatia). Há ainda outros estudos que sublinham a importância da utilização de ferramentas com o objectivo específico de transformar ou de prevenir conflitos.

As práticas de paz baseadas na arte são uma das propostas. Nos conflitos, a percepção e as crenças estabelecidas entre as pessoas são rigidamente estruturadas numa adjudicação binária e implicam tensão corporal e ameaça. A violência reduz a capacidade humana de reconhecer a posição do outro ou de reconhecer pontos de vista mais complexos e com vários ângulos (Arai, 2013). Todo acto violento implica uma invasão do espaço (Kornblum, 2002).

A violência seria uma resposta automática em que as perspectivas estão fechadas. Por contraponto, as artes seriam necessárias precisamente por causa da sua capacidade de expressar a totalidade do eu, de integrar a diversidade, de aceitar, de conter, de suavizar ou de  relaxar. Toda acção pacífica e violenta envolve decisões baseadas em movimentos conscientes ou inconscientes (Eddy, 2002, 2009).

Por outro lado, a arte como função transformadora. em si mesma, é tão antiga quanto a história humana. Nas culturas ao redor do mundo, a cura sempre foi vista como envolvendo dimensões físicas e psicológicas, integrando formas cinestésicas, sensoriais, percetivas, emocionais e sociais de entender o mundo, que são mutáveis. 

A visão de uma vida criativa e incorporadaoferece a possibilidade de localizar as artes expressivas dentro da tarefa mais ampla da “cura do nosso mundo destruído”, contendo assim uma “responsabilidade estética”. 

Margarida Pedroso de Lima 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Acarón, T. (2018): Movement decision-making in violence prevention and peace practices, Journal of Peace Education, DOI: 10.1080/17400201.2018.1463913

Arai, Tatsushi. 2013. “Art, Creativity, and Conflict Transformation: A Practitioner’s Field Note.” In Juniata Voices, 13:147–68. Juniata College, Huntington Pennsylvania: Juniata College Press. 

Eddy, Martha. 2009. “A Brief History of Somatic Practices and Dance: Historical Development of the Field of Somatic Education and Its Relationship to Dance.” Journal of Dance and Somatic Practices (1): 5–28. doi:10.1386/jdsp.1.1.5/1. 

Kornblum, Rena. 2002. Disarming the Playground: Violence Prevention through Movement and pro-Social Skills, Activity Book. Oklahoma City, OK: Wood’N’Barnes.

Mayton, D.M. (2001). Nonviolence Within Cultures of Peace: A Means and An Ends. Peace and conflict: Journal of Peace Psychology, 7(2), 143-155. doi:10.1207/S15327949PAC0702_05

Montiel, C.J. (2000) Toward a pshychology of structural peacebuilding. In D. Christie, R. Wagner, & D.D. Winter (Eds.), Peace, conflict and violence: Peace Psychology for the 21st century (pp.282-294). Englewood Cliffs, NJ: Prentice-Hall.

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